O silêncio nos corredores do departamento de filosofia da University of Hertfordshire, que em breve se tornará permanente, é o som de uma mudança tectônica na educação superior ocidental. Imagine uma biblioteca onde os volumes de Platão, Kant e Arendt começam a acumular poeira, não por falta de interesse dos estudantes, mas por uma diretiva administrativa que os torna obsoletos. A decisão de retirar a filosofia de sua grade não é apenas um corte orçamentário; é um gesto simbólico que redefine o propósito da universidade no século XXI. Ao remover a filosofia de seu currículo, a instituição não apenas elimina uma matéria, mas golpeia o alicerce sobre o qual a investigação crítica e o questionamento ético deveriam se apoiar.

Segundo o Daily Nous, a universidade decidiu encerrar o curso de graduação em Filosofia e eliminar gradualmente as unidades curriculares da área. Relatos indicam que o fim das atividades de ensino ocorrerá em cerca de dois anos, com acordos de transição sendo desenhados para os alunos atualmente matriculados. Para candidatos recentes, ofertas de matrícula teriam sido retiradas. A justificativa apresentada pela administração é predominantemente financeira — uma resposta fria a pressões orçamentárias que, ironicamente, ignora o valor imaterial de uma formação humanista. O caso se torna ainda mais emblemático porque, até o verão passado, docentes foram instados a investir tempo substancial na reformulação de um currículo que, agora, não será posto em prática. A desilusão entre os professores, cujos contratos permanentes passam a conviver com incertezas diante da reestruturação, expõe a distância entre a gestão e a missão intelectual da universidade.

A erosão do pensamento humanista na academia moderna

Historicamente, a universidade nasceu como um espaço de contemplação e debate, onde a filosofia servia como espinha dorsal para todas as outras ciências. No entanto, o modelo contemporâneo de ensino superior deslocou-se para uma lógica de mercado, na qual a métrica de sucesso é ditada pela empregabilidade imediata e pelo retorno sobre o investimento. A filosofia, por definição, não oferece uma ferramenta pronta para o mercado de trabalho, mas oferece algo mais “perigoso” para sistemas rígidos: a capacidade de questionar as premissas sobre as quais esses sistemas operam. Quando uma instituição decide que a filosofia é um luxo dispensável, está sinalizando que o pensamento crítico tornou-se um custo que o orçamento já não pode suportar.

Esse não é um evento isolado, mas parte de um padrão mais amplo de enxugamento nas ciências humanas. A fusão recorrente de departamentos e a reestruturação constante, observadas em Hertfordshire, são sintomas de uma gestão que vê a educação como linha de montagem. O custo de manter o pensamento complexo vivo é tratado como passivo contábil, não como ativo cultural. Ao remover a filosofia, a universidade perde a capacidade de oferecer um contraponto ético aos avanços tecnológicos e às crises sociais, tornando-se mais uma fábrica de diplomas técnicos, desprovida de bússola filosófica para navegar o mundo real.

O mecanismo da exclusão financeira e a falha de governança

A dinâmica por trás desse fechamento revela uma falha estrutural na governança universitária, em que decisões de impacto profundo são tomadas sem a devida participação de quem constrói o conhecimento. A ausência de diálogo entre administração e corpo docente, apontada nos relatos, sublinha uma alteração na hierarquia de poder acadêmico. Quando o poder de decisão é concentrado em gestores focados em balanços financeiros, a essência da universidade como comunidade de aprendizes e mestres é corroída. A eficiência, nesse caso, tornou-se o único valor, suplantando a busca pela verdade e pela formação integral do indivíduo.

O processo de redesign curricular, que consumiu tempo e energia de professores apenas para ser descartado, ilustra o desperdício de capital humano que acompanha a burocratização. Se o objetivo era a austeridade, ignorar o trabalho intelectual já realizado contradiz a própria lógica de economia. Na prática, o programa de filosofia foi tratado como descartável, apesar de seu impacto transversal: sua ausência empobrece o debate interdisciplinar necessário ao desenvolvimento de qualquer área, da engenharia à medicina.

Tensões entre stakeholders e o impacto regional

As implicações dessa decisão extrapolam os muros da University of Hertfordshire. Para os estudantes, o fechamento representa o fim de uma oportunidade formativa; para a comunidade local, a perda é mais profunda. Ainda que o anúncio diga respeito a uma instituição específica, a retirada da filosofia do currículo pode reduzir drasticamente a oferta formativa na região, criando bolsões de escassez intelectual. Reguladores e formuladores de políticas públicas deveriam observar com atenção esse movimento, que reabre a pergunta sobre o papel do Estado e das instituições na preservação do patrimônio intelectual. Se uma universidade pública ou semi-pública abandona as humanidades, quem mantém viva a tradição crítica?

Concorrentes e outras instituições de ensino podem, inicialmente, enxergar uma chance de capturar alunos, mas o efeito sistêmico tende ao empobrecimento. A erosão do pensamento crítico numa região afeta a qualidade da cidadania e a capacidade de inovação social. O mercado de trabalho pode não exigir um diploma em filosofia, mas a sociedade exige cidadãos que saibam pensar, questionar e discernir — competências diretamente cultivadas pelo estudo filosófico. A tensão entre a necessidade de sobrevivência financeira e a responsabilidade social das universidades continuará a assombrar o setor, forçando uma reflexão sobre o que estamos dispostos a sacrificar no altar da eficiência.

Perguntas em aberto e o futuro do ensino superior

O que resta quando a filosofia é removida de uma instituição de ensino? A incerteza sobre o futuro dos docentes, muitos em contratos permanentes, cria um precedente perigoso para a segurança no trabalho acadêmico. Se a estabilidade pode ser contornada por reestruturações financeiras, o que garante a liberdade de cátedra e a independência do pensamento no longo prazo? A administração de Hertfordshire evitou o confronto direto, mas as perguntas sobre como a decisão foi alcançada — e quem realmente se beneficia — permanecem sem respostas claras.

Daqui para frente, será preciso observar se outras instituições seguirão o caminho da eliminação total de disciplinas consideradas “não essenciais”. O precedente aberto por Hertfordshire pode servir como modelo de austeridade para universidades em dificuldades ou gerar reação contrária, mobilizando defensores das humanidades em torno de uma nova defesa do valor da filosofia. A questão não é apenas se a filosofia sobrevive em Hertfordshire, mas se a universidade, como a conhecemos, pode sobreviver sem ela.

O esvaziamento das salas de aula ecoa além das fronteiras do campus. Quando as luzes se apagarem definitivamente sobre os estudos filosóficos, o que pode restar é um espaço de transmissão de dados, mas não de formação de pensamento. A pergunta que paira é se, ao buscar eficiência absoluta, não estaremos construindo instituições que, embora financeiramente solventes, se tornem intelectualmente insolventes diante de um futuro que exige mais — e não menos — reflexão.

Com reportagem de Daily Nous

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