A força bruta e a expressividade visceral que Ursula von Rydingsvard imprimia em suas colossais esculturas pareciam ecoar a própria resiliência de sua trajetória. Morreu em sua casa em Manhattan, aos 84 anos, a artista que transformou vigas de cedro em monumentos que desafiavam a gravidade e a percepção, inspirada por um passado forjado em campos de refugiados do pós-Segunda Guerra. Sua partida, anunciada em 27 de outubro de 2025, encerra uma carreira de mais de cinco décadas dedicada a dar forma a materiais brutos, extraindo deles uma beleza crua e inconfundível.
Um Legado de Madeira e Memória
Nascida em 1942 em Deensen, Alemanha, Ursula von Rydingsvard teve uma infância marcada pela instabilidade e pela sobrevivência. Filha de mãe polonesa e pai ucraniano, sua família, composta por nove pessoas, passou por oito campos de deslocados e refugiados no período do pós-guerra. Essa experiência fundacional moldou profundamente sua visão artística, conferindo às suas obras uma gravidade e uma profundidade que transcendem a mera forma. Ao chegar aos Estados Unidos em 1950, ela trazia consigo não apenas as marcas físicas e psicológicas de um passado turbulento, mas também a determinação de quem aprendeu a construir a partir do nada.
A Poética da Escala e do Material
Ao longo de sua carreira, von Rydingsvard tornou-se célebre por sua habilidade em manipular materiais de grande escala, especialmente o cedro. Ela não apenas esculpia, mas parecia desmantelar e recompor as enormes vigas de madeira, criando formas orgânicas e abstratas que evocavam elementos da natureza, como cones, dunas ou mesmo tornados. Uma de suas peças mais notáveis, um colosso em forma de tornado pesando mais de 6.800 quilos, exemplifica essa maestria. Mas seu repertório não se limitava à madeira; bronze, têxteis e até intestinos de animais foram incorporados em suas explorações, sempre com um olhar inquisitivo sobre as texturas e as possibilidades expressivas de cada substância.
A Força como Sol Central
Courtney Childress, seu gerente de estúdio, a descreveu como "o sol", uma força magnética que atraía e mantinha as pessoas em sua órbita. Essa descrição capta a intensidade com que von Rydingsvard vivia e trabalhava, movendo-se pelo estúdio com uma energia inesgotável, como se "o cabelo estivesse em chamas". Essa paixão transbordava para suas obras, conferindo-lhes uma vitalidade e uma presença que ressoavam com o público. Sua arte não era apenas visual; era tátil, emocional, convidando o espectador a uma experiência imersiva, quase física, com as texturas ásperas e as formas imponentes que ela criava.
Um Legado em Constante Movimento
A morte de Ursula von Rydingsvard deixa um vazio significativo no mundo da arte contemporânea. Sua capacidade de infundir em materiais inertes uma vitalidade tão palpável, aliada à profundidade de suas experiências pessoais, criou um corpo de trabalho singular e poderoso. O que permanecerá, para além das monumentais esculturas que pontuam galerias e coleções ao redor do mundo, é a lembrança de uma artista que, a partir da adversidade e do deslocamento, ergueu um universo de formas que celebram a força intrínseca da vida e da memória — um testemunho silencioso de sua passagem.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





