Valerie Brathwaite, artista cuja obra estabeleceu diálogos profundos entre formações geográficas e a anatomia humana, faleceu na última segunda-feira, aos 88 anos. A notícia foi confirmada por meio de seus canais oficiais, marcando o encerramento de uma carreira que, durante a segunda metade do século XX, consolidou a escultora como uma das vozes mais distintas do cenário artístico em Caracas.
Brathwaite construiu uma trajetória marcada pela experimentação constante em cerâmica, tecido e outros materiais. Sua prática artística, frequentemente descrita como uma busca por fluidez, desafiou as categorizações tradicionais do modernismo e do conceitualismo, estabelecendo um vocabulário visual que unia a memória de suas raízes em Trinidad e Tobago com a vibrante estética da Venezuela.
O encontro entre a Europa e a América Latina
Nascida em San Fernando em 1938, Brathwaite iniciou sua formação em Londres, passando pela Hornsey College of Arts e pelo Royal College of Art, antes de se mudar para Paris. Entre 1959 e 1964, estudou sob a tutela do renomado escultor modernista Ossip Zadkine, uma experiência que moldou sua compreensão técnica sobre volumes e espaços. Contudo, foi a mudança para Caracas, em 1969, que definiu o rumo de sua maturidade artística.
Na Venezuela, a escultora encontrou uma cena efervescente, estabelecendo uma conexão fundamental com Gego, artista que simbolizava a ponte entre o modernismo europeu e as novas direções da arte latino-americana. A afinidade entre ambas, selada em encontros no apartamento de Gego, permitiu que Brathwaite desenvolvesse uma linguagem própria, elogiada por críticos da época pela capacidade de infundir materiais com uma sensualidade carnal, evitando a necessidade de recorrer a figurações literais.
A materialidade como extensão do corpo
O trabalho de Brathwaite é amplamente reconhecido pela manipulação de cores e texturas que emulam a natureza. Em sua série "Soft Body", a artista utilizou tecidos costurados e preenchidos para criar ilusões de carne tumescente, mantendo, no entanto, a paleta de cores pastéis que já caracterizava suas esculturas ovóides das décadas anteriores. A transição entre o rígido e o macio, entre o metal e o tecido, reflete a natureza mutável de sua produção.
Essa abordagem não era meramente estética, mas uma investigação sobre a relação íntima entre o observador e o objeto. Ao criar esculturas que lembram tanto paisagens montanhosas quanto membros humanos, Brathwaite forçava o espectador a reconsiderar a fronteira entre o sujeito e o ambiente. Como ela própria observou, a noite era o momento em que as linhas e formas ganhavam liberdade, transformando-se em volumes que transcenderam a rigidez da luz diurna.
Reconhecimento tardio e legado
A historiadora da arte Cecilia Fajardo-Hill observou que, apesar do sucesso inicial na Venezuela, Brathwaite permaneceu, por décadas, fora do radar do grande público internacional. A dificuldade de encaixá-la nos movimentos dominantes da época — seja na abstração geométrica ou no conceitualismo estrito — contribuiu para esse relativo isolamento, que começou a ser revertido apenas recentemente.
Nos últimos anos, exposições como a realizada pelo MALBA em 2025 e sua participação na Bienal de Mercosul, sob curadoria de Raphael Fonseca, trouxeram um novo fôlego à leitura de sua obra. O reconhecimento tardio do mercado confirma que a independência de seu caminho, outrora um obstáculo para a crítica institucional, tornou-se o elemento central de sua relevância contemporânea.
Perspectivas sobre uma obra atemporal
O que permanece em aberto é a dimensão total de seu arquivo, especialmente no que diz respeito às suas explorações noturnas e à vasta gama de materiais que ainda aguardam uma catalogação exaustiva. O interesse crescente de instituições globais por sua produção sugere que a análise crítica de sua obra está apenas em seu estágio inicial.
O futuro da recepção de Valerie Brathwaite dependerá de como as próximas gerações interpretarão sua recusa em seguir tendências. Ao observar peças como "Where Have All The Flowers Gone?", fica claro que sua contribuição transcende a natureza morta tradicional, propondo uma forma de vida que habita o espaço entre o orgânico e o construído.
A trajetória da artista encerra um capítulo importante, mas abre espaço para que sua obra seja finalmente lida fora dos limites geográficos que ela, com tanta sensibilidade, ajudou a borrar. Com reportagem de Brazil Valley
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