Em 1968, uma mulher caminhava pelos corredores de um cinema de arte em Munique com calças sem fundo, expondo sua genitália ao nível do olhar dos espectadores. Não era apenas uma provocação gratuita; era uma intervenção cirúrgica no tecido do voyeurismo cinematográfico. Valie Export, nascida Waltraud Lehner, entendia que a tela, dominada por intenções masculinas, mantinha o público cativo em uma passividade perigosa. Ao forçar a proximidade física, ela quebrou a barreira de segurança entre o espectador e o objeto de seu olhar, inaugurando o que chamou de 'ação', em vez de performance. A notícia de sua morte, aos 85 anos, confirmada pela galeria Thaddaeus Ropac, encerra uma trajetória de resistência que começou quando ela abandonou as convenções de uma sociedade austríaca estagnada e patriarcal, adotando o nome de uma marca de cigarros para afirmar sua independência como marca própria.

A gênese da 'Feminista Actionista'

Export surgiu no contexto vibrante e violento do Viennese Actionism, um movimento que utilizava fluidos corporais e tabus para chocar uma sociedade que ela via como manchada por resquícios do fascismo. Contudo, ela rapidamente traçou seu próprio caminho como 'Feminista Actionista'. Enquanto seus contemporâneos masculinos focavam em uma catarse niilista, Export utilizava o corpo como um território político a ser reivindicado. A rejeição ao papel de dona de casa tradicional não foi apenas um ato doméstico, mas uma redefinição existencial que permitiu que ela se tornasse a arquiteta da própria identidade, livre das linhagens de homens que tradicionalmente definiam o sobrenome feminino.

O mecanismo do toque e da proximidade

Em 'Tapp und Tastkino' (1968), a artista levou sua crítica ao limite ao convidar estranhos a tocarem seus seios através de uma pequena cortina montada em seu peito, enquanto um relógio cronometrava a interação. O trabalho, que gerou indignação pública, expunha a hipocrisia do olhar masculino e a objetificação do corpo feminino, transformando o espectador em participante ativo de uma invasão que ele mesmo julgava permissível. Export operava na intersecção entre a semântica e o físico, tratando o corpo como uma linguagem que, se silenciada, precisava ser gritada através de ações radicais e, por vezes, dolorosas, como o uso de lâminas para questionar padrões de beleza.

A voz como resistência institucional

O impacto de Export transcendeu a performance, manifestando-se em sua curadoria pioneira na exposição MAGNA. Feminismo: Arte e Criatividade, em 1975, e em sua representação na Bienal de Veneza ao lado de Maria Lassnig. Ela compreendia que a realidade é uma construção social engenheirada por homens e que, sem acesso aos meios de comunicação, a voz feminina permaneceria inaudível. Sua carreira como professora e a fundação do Valie Export Centre em Linz consolidaram seu papel não apenas como artista, mas como uma historiadora do próprio tempo, preocupada com a preservação de uma memória que a sociedade insiste em apagar.

O futuro da luta pela representação

Mesmo no final da vida, Export mantinha uma visão sóbria sobre o progresso das mulheres, argumentando que as mudanças alcançadas são ínfimas diante da longa linha do tempo da opressão. Ela alertava que, em um cenário contemporâneo, seu trabalho possivelmente enfrentaria ainda mais censura e indignação, provando que a batalha por uma representação autêntica ainda está longe de ser vencida. O que resta, para além de seus arquivos e obras, é a persistência da pergunta que ela impôs ao mundo: quem detém o direito de olhar e quem tem o direito de ser visto?

Talvez a maior provocação de Export não tenha sido uma obra específica, mas a insistência em que o corpo feminino nunca seja apenas uma imagem, mas um sujeito em constante processo de fala. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic