As vendas no comércio varejista brasileiro registraram um recuo de 1,5% em abril na comparação com março, segundo dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) divulgada pelo IBGE. O resultado superou a retração de 0,6% projetada pelo mercado e interrompeu uma sequência de três meses de crescimento, devolvendo o setor ao patamar de janeiro de 2026.

O desempenho negativo foi disseminado entre as diversas categorias, refletindo uma perda de fôlego no consumo doméstico. Enquanto o setor de serviços e a indústria apresentaram avanços no mesmo período, o varejo destacou-se como o único segmento monitorado pelo instituto a registrar contração, evidenciando o impacto do ambiente macroeconômico atual.

O peso dos itens essenciais

A resiliência do varejo em meses anteriores foi sustentada em grande parte por itens de necessidade básica. Em abril, a categoria de supermercados, alimentos e bebidas avançou 1,3%, atuando como um amortecedor para o indicador cheio. Sem esse componente, a queda global do varejo teria sido ainda mais severa.

Contudo, essa dependência de bens essenciais revela uma estrutura de consumo fragilizada. Economistas apontam que cerca de 60% do crescimento acumulado no ano é impulsionado por itens básicos, como produtos farmacêuticos e alimentos, enquanto categorias mais sensíveis à renda e ao crédito perdem espaço rapidamente no orçamento das famílias.

O impacto das condições financeiras

A decomposição dos dados revela que tanto as atividades sensíveis à renda quanto as ligadas ao crédito sofreram quedas expressivas. Segmentos como combustíveis e lubrificantes recuaram 6,2%, enquanto outros artigos de uso pessoal e doméstico caíram 4,6%. O setor de móveis e eletrodomésticos, por sua vez, acumulou seu quinto mês consecutivo de retração.

O mecanismo por trás desse movimento é a política monetária em patamar restritivo, que encarece o crédito e limita o poder de compra discricionário. O repasse limitado de pagamentos judiciais, como precatórios, observados no final de março, também parece ter contribuído para a ausência de um efeito positivo mais duradouro no consumo de abril.

Tensões no mercado de trabalho

Analistas divergem sobre a intensidade da desaceleração, mas convergem quanto à importância do mercado de trabalho como pilar de sustentação. Embora o desemprego em níveis historicamente baixos garanta uma base de renda para as famílias, a desaceleração na criação de novas vagas e a rigidez dos juros tendem a pressionar o consumo para baixo no curto prazo.

Para reguladores e formuladores de política econômica, o desafio reside em equilibrar o controle inflacionário com a manutenção do ritmo da atividade. Instituições como a XP e o Bradesco revisaram suas projeções de PIB para o segundo trimestre, sinalizando uma cautela maior quanto à capacidade do varejo de retomar o crescimento robusto nos próximos meses.

O que observar no segundo semestre

A grande incógnita para o restante do ano é a eficácia das medidas de estímulo e crédito anunciadas pelo governo. O impacto dessas ações no PIB, estimado por alguns analistas em até 1,5 ponto percentual, ainda precisa ser validado pelo comportamento real dos consumidores frente a um cenário de endividamento elevado.

O monitoramento dos próximos dados da PMC será fundamental para entender se abril foi um ponto fora da curva ou o início de uma tendência de estagnação. A sustentabilidade do consumo dependerá da combinação entre a evolução da renda real e a flexibilização das condições de crédito para o setor varejista.

O cenário econômico aponta para uma fase de transição, onde o otimismo do início do ano dá lugar a uma análise mais rigorosa sobre a capacidade de expansão do consumo interno. O desempenho do setor varejista seguirá como termômetro central da confiança das famílias brasileiras.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney