Balaclavas cor-de-rosa, sinalizadores de fumaça e bandeiras ucranianas. A cena, protagonizada por ativistas dos coletivos Pussy Riot e FEMEN em frente ao pavilhão russo, trouxe a crueza da guerra para os canais de Veneza. O protesto foi a manifestação física de um conflito que se desenrolava em corredores burocráticos e culminou com a decisão da União Europeia de retirar um financiamento de €2 milhões da mais importante mostra de artes do mundo.

O motivo é a presença da Rússia na Bienal pela primeira vez desde a invasão em larga escala da Ucrânia em 2022. A medida opõe os imperativos políticos de um continente que vive à sombra da guerra contra a defesa da autonomia cultural de uma instituição com 131 anos de história. A arte, em seu palco mais nobre, foi intimada a tomar um lado.

A autonomia em jogo

Para o presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, a decisão de Bruxelas é “inteiramente política, certamente não legal e menos ainda cultural”. Em sua visão, excluir uma nação por decreto seria um ato de censura, uma traição aos princípios de liberdade e pesquisa que definem a instituição. A Bienal argumenta que não pode vetar a participação, e que os fundos europeus representam uma fração de seu orçamento. O que está em jogo, segundo essa leitura, é o princípio da arte como um território que deve transcender, ou ao menos ser isolado, das disputas entre nações.

A resposta da UE é igualmente firme. A Comissão Europeia argumenta que o dinheiro dos contribuintes não pode ser usado em iniciativas desalinhadas com os valores democráticos. O temor é que o pavilhão russo se torne uma “plataforma para mensagens patrocinadas” pelo Kremlin, contornando sanções por uma via cultural. A mensagem é clara: no clima atual, nenhuma plataforma é verdadeiramente neutra.

A memória curta da arte

Críticos apontam para uma aparente inconsistência na postura da Bienal. Em 2022, a organização manifestou solidariedade à Ucrânia quando os próprios artistas russos se retiraram em protesto contra a guerra. Agora, com o retorno de um pavilhão com chancela estatal, a defesa da “autonomia” soa, para alguns, como um escudo conveniente. O episódio é um microcosmo de uma questão que assombra o mundo cultural: onde termina o diálogo e começa a cumplicidade?

Enquanto políticos em Bruxelas revisam cláusulas legais e o Kremlin lamenta as “tentativas de cancelar nossa cultura”, a fumaça de um sinalizador ativado por uma ativista paira no ar de Veneza. A questão que permanece suspensa não é sobre os €2 milhões, mas sobre o preço de um assento à mesa. Quando a arte e a guerra se encontram, quem, afinal, define os termos da conversa?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews