Pietrangelo Buttafuoco, o presidente da Bienal de Veneza, não se arrepende de ter permitido a participação do pavilhão russo pela primeira vez desde o início da invasão da Ucrânia. “Eu faria tudo de novo”, declarou Buttafuoco em uma entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, defendendo a independência da instituição.

A decisão, no entanto, colocou a mais antiga e prestigiosa mostra de arte do mundo no centro de um intenso debate sobre o papel da cultura em tempos de guerra. A controvérsia custou caro: a Comissão Europeia cortou um subsídio de €2 milhões e artistas e nações participantes protestaram. A tese de Buttafuoco coloca em rota de colisão o ideal da arte como ponte universal e a crescente demanda por responsabilização política de nações agressoras.

A 'trégua olímpica' e seu custo

Para justificar sua posição, Buttafuoco invoca o que chama de “um preceito antigo de nossa civilização, o da trégua nas Olimpíadas”. Segundo ele, a história de 131 anos da Bienal, que sempre acolheu a todos mesmo durante conflitos, a obriga a permanecer aberta. “A arte venceu, não Putin”, rebateu ele a uma crítica do ministro da cultura da Itália. A realidade, contudo, foi menos idealista: o pavilhão russo abriu apenas para convidados durante os dias de pré-estreia e permaneceu fechado ao público geral, sugerindo um recuo forçado ou um compromisso tenso.

O custo financeiro e político foi imediato. A Comissão Europeia alegou que a presença russa desafiava o direito internacional. A Bienal, por sua vez, argumentou que não poderia barrar nenhum país reconhecido oficialmente pela Itália. A defesa de Buttafuoco é que, em todos os atos formais, “não há uma única vírgula que viole leis e regulamentos”, transferindo o ônus da decisão para uma questão de legalidade estrita, não de posicionamento moral.

Entre a identidade e a instituição

O debate é complexo, e uma voz inesperada adicionou mais uma camada de nuance. O cineasta ucraniano Sergei Loznitsa, um crítico ferrenho da Rússia, afirmou que “nunca visitaria” o pavilhão, mas classificou o corte de verbas da Comissão Europeia como uma “punição de jardim de infância”. Para ele, a medida de punir a Bienal como instituição cultural é um precedente mais perigoso do que a presença do pavilhão em si.

A própria figura de Buttafuoco alimenta o escrutínio. Descrito como um “conservador excêntrico” e tendo se convertido ao islamismo, ele possui uma identidade política que não se encaixa em rótulos fáceis na Itália. Ele insiste que, no cargo, serve à instituição, e não às suas crenças pessoais. A questão que permanece é se sua defesa da neutralidade artística é um princípio institucional puro ou se reflete uma visão de mundo particular.

A polêmica em Veneza expõe um dilema sem respostas fáceis para o circuito cultural global. A linha que separa o diálogo aberto da legitimação de regimes agressores é tênue e contestada. Enquanto Buttafuoco defende a arte como um santuário, seus críticos argumentam que, em certas circunstâncias, a neutralidade é uma forma de cumplicidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews