A ausência pode ser tão eloquente quanto a presença. Para muitos na indústria, a expectativa para o Festival de Veneza de 2026 era ver Tom Cruise sob a direção de Alejandro G. Iñárritu ou Brad Pitt no novo filme de David Fincher. Nenhum dos dois estará no Lido. A Warner Bros., segundo o diretor artístico do festival, Alberto Barbera, optou por uma estratégia de marketing que ignora o circuito de festivais. A resposta de Barbera, em entrevista ao The Hollywood Reporter, soou como um manifesto: “Se os grandes filmes de Hollywood decidem pular os festivais, vamos melhorar nosso papel na promoção de filmes independentes”.

O que poderia ser visto como um revés se transformou em uma declaração de princípios. A ausência dos blockbusters americanos não deixou um vácuo, mas abriu espaço para que Veneza se concentrasse naquilo que define sua missão histórica: ser uma plataforma para o cinema de autor global. A seleção anunciada para a competição principal é a prova material dessa aposta, um lembrete de que o prestígio de um festival não se mede apenas pela quantidade de estrelas de Hollywood por metro quadrado no tapete vermelho.

O refúgio dos mestres

A resposta de Veneza é uma competição pelo Leão de Ouro que se lê como um quem é quem do cinema autoral contemporâneo. A lista é encabeçada por nomes que dispensam apresentações e que trazem projetos de peso. O sul-coreano Lee Chang-dong, de Em Chamas, retorna com Possible Love, reunindo um elenco estelar do cinema do país. O alemão Werner Herzog dirige as irmãs Kate e Rooney Mara em Bucking Fastard. O irlandês Martin McDonagh, após o sucesso de Os Banshees de Inisherin, escala John Malkovich e Sam Rockwell para Wild Horse Nine. E o japonês Hirokazu Kore-eda, sempre prolífico, compete com Look Back, uma animação sobre artistas de mangá.

Essa seleção não é um plano B, mas uma reafirmação de identidade. São cineastas que construíram suas carreiras com o apoio de festivais como Veneza, Cannes e Berlim. Ao dar-lhes o palco principal, Barbera não apenas preenche a grade, mas também sinaliza para a indústria onde reside o centro de gravidade cultural do evento: na força da assinatura de um diretor, não no poder de marketing de um estúdio.

Ecos, surpresas e uma questão incômoda

Para além dos grandes nomes, a programação revela subtextos interessantes. A figura de Bernardo Bertolucci assombra a edição, presente tanto no documentário de sete horas e meia de Luca Guadagnino, Joie de vivre, quanto na adaptação de seu último roteiro, The Echo Chamber, agora um filme de Andrea Pallaoro com Alicia Vikander e Susan Sarandon. É um festival que olha para seu próprio legado italiano.

Contudo, nem tudo é celebração. Em uma lista de vinte filmes na competição principal, apenas um é dirigido por uma mulher: Woman Unknown, da dinamarquesa-egípcia May El-Toukhy. O dado, destacado pela própria fonte da notícia, o Criterion Daily, é um contraponto incômodo à narrativa de um festival progressista e descobridor de talentos, expondo uma lacuna que persiste nos mais altos escalões do cinema mundial.

A pergunta que paira sobre o Lido em 2026 não é apenas sobre quem levará o Leão de Ouro. A questão é se a manobra de Barbera é uma adaptação tática a um calendário desfavorável ou o início de uma redefinição permanente do papel dos grandes festivais. Em um ecossistema cada vez mais dominado por estratégias de lançamento globais e centralizadas, Veneza se oferece como um santuário para um certo tipo de cinema. Resta saber quantos peregrinos ainda estão dispostos a fazer a viagem.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Criterion Daily