O artista português Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, levará sua singular abordagem de arte urbana para a Espanha com sua primeira exposição individual em Mallorca. Intitulada 'Latent', a mostra inaugura a colaboração do artista com a galeria Baró e ficará em cartaz de setembro de 2026 a março de 2027.

Por mais de duas décadas, Vhils construiu uma obra que inverte a lógica do grafite e da pintura mural. Em vez de adicionar, ele subtrai. Seu processo criativo consiste em cortar, perfurar e quebrar superfícies para revelar retratos e formas a partir das camadas de material e história já existentes. A exposição, segundo reportagem da Hypebeast, reúne um corpo de trabalho que aprofunda essa investigação sobre memória, materialidade e transformação urbana.

A arqueologia da superfície

A prática de Vhils pode ser lida como uma forma de arqueologia contemporânea. Ele não impõe uma imagem sobre uma tela em branco, mas escava o que já está presente em portas abandonadas, cartazes publicitários rasgados e fragmentos de demolições. O título da exposição, 'Latent', é uma referência direta a esse método. A inspiração vem de um fenômeno óptico na Catedral de Palma, onde a luz, ao passar por uma rosácea, projeta uma imagem idêntica na parede oposta. Nada é adicionado; a arquitetura apenas revela uma imagem que já continha em si.

É exatamente este o paralelo com o trabalho do artista. Ao remover camadas de tinta, gesso ou papel de um outdoor, ele revela as imagens e cores de campanhas passadas, criando uma composição que é um registro do tempo. O rosto que emerge não é pintado sobre a superfície, mas descoberto dentro dela, como um fóssil urbano que emerge de estratos de concreto e publicidade.

Cidades como memória viva

A exposição em Mallorca apresenta obras que transformam materiais normalmente descartados em crônicas do desenvolvimento e deslocamento urbano. Portas de madeira são esculpidas com rostos anônimos, azulejos de cerâmica servem de base para retratos e detritos de edifícios demolidos ganham nova vida como esculturas que guardam vestígios de seus ambientes originais.

Com isso, Vhils estende sua investigação sobre a relação simbiótica entre as cidades e as pessoas que nelas vivem. Para ele, a arquitetura não é um pano de fundo inerte, mas uma entidade capaz de absorver e registrar a experiência humana. Os materiais, por sua vez, tornam-se depositários da memória coletiva, testemunhando o crescimento, a decadência e a constante reinvenção dos espaços urbanos.

A questão central que permeia a obra de Vhils e a exposição 'Latent' permanece aberta: o que uma superfície pode conter além daquilo que vemos inicialmente? Ao transformar a destruição em um ato de criação, o artista convida o observador a enxergar as paredes da cidade não como barreiras, mas como páginas de um livro de história em constante reescrita.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast