A Via Francigena, rota de peregrinação medieval que liga Canterbury a Roma, oferece um vislumbre de uma Toscana menos explorada, longe do glamour das postagens de Instagram. Em vez de colinas verdejantes e vilarejos idílicos, o que se apresenta é um cenário de "Toscana bruta", onde a aspereza das pedreiras de mármore de Carrara contrasta com a serenidade do mar ao longe. A jornada, que para muitos se resume aos últimos quilômetros até Roma para obter o certificado de peregrino, pode ser uma experiência profunda e autêntica para aqueles que se aventuram por trechos menos populares.
O percurso de cerca de 1.250 milhas é geralmente completado em cerca de 90 dias, mas a maioria dos caminhantes opta por seções de uma a duas semanas. A experiência descrita foge do idealizado "Under the Tuscan Sun", focando em uma realidade mais crua, onde o asfalto e o tráfego ocasional de carros compactos italianos se tornam parte da paisagem. A chegada a Carrara revela a indústria do mármore em sua escala monumental, com blocos gigantes aguardando para se tornarem peças de design, e não necessariamente obras de arte como o Davi de Michelangelo.
O Encanto do Inesperado
A expectativa de uma peregrinação tranquila, comparada a experiências anteriores no Caminho de Santiago, foi rapidamente substituída pela realidade de carregar todo o equipamento. A ausência de serviços de "slackpacking" – onde a bagagem é transportada para o próximo hotel – transformou a caminhada em um teste de resistência, especialmente com uma mochila de corrida improvisada. No entanto, essa dificuldade inicial deu lugar a uma aceitação, quase uma afeição, pela "bagagem pesada", um fenômeno comparado à síndrome de Estocolmo. A solidão nas trilhas, com poucos outros caminhantes e a presença constante dos moradores locais em seu cotidiano, proporcionou uma sensação de exclusividade e imersão.
Com apenas cerca de 12.000 peregrinos coletando o "Testimonium" em um ano de Jubileu em Roma, e uma estimativa de 100.000 pessoas pisando em algum trecho da rota ao longo do ano, a Via Francigena ainda está longe da superlotação. Em comparação, o Caminho de Santiago emitiu mais de meio milhão de "Compostelas" no mesmo período. O crescimento da Via é notável, dobrando a cada ano, mas partindo de uma base pequena, o que a torna um refúgio para quem busca uma Itália autêntica, livre das hordas de turistas que assolam cidades como Florença e Roma.
Sabores e Paisagens da Toscana Profunda
A experiência gastronômica ao longo da Via Francigena, neste trecho menos explorado, é um dos pontos altos. Sem a necessidade de reservas ou a concorrência por mesas, os caminhantes descobrem a culinária local em sua forma mais genuína. Em Camaiore, o bacalhau e um "primo" de caça marcam o início de uma jornada de sabores. Em Seravezza, um risoto de frutos do mar, salgado como o mar próximo, e em Massa, a massa "maltagliati" de farinha de milho, conhecida como "curchua", aparecem no cardápio. O restaurante Origine, em Massa, serve "calamarata" com camarões e "polpo" sobre mousseline de mandioca, um prato que evoca Milão mais do que uma cidade de mármore.
A descoberta do "Franciacorta", a resposta italiana ao Champagne, tornou-se um ritual noturno, uma bebida superior ao Prosecco e raramente encontrada nos Estados Unidos. As refeições eram sempre em companhia de locais, em seus restaurantes de sempre. O ápice culinário ocorreu na Locanda de' Banchieri, um antigo posto de taxação do comércio de mármore, agora um hotel com estrela Michelin. Ali, pratos como "croxetti" com pesto branco e "ragu" de couve preta toscana, demonstraram uma cozinha que, assim como os caminhantes, absorvia a paisagem ao redor.
A Calma na Jornada
A jornada pela Via Francigena, mesmo nos trechos menos glamourosos, oferece momentos de reflexão e beleza inesperada. As pedreiras de mármore, embora cicatrizes na paisagem, remetem à origem de obras de arte icônicas. A natureza se manifesta em detalhes poéticos: o aroma de louro esmagado, a menta fresca colhida na trilha, as amoras que aparecem nos momentos de necessidade e a longevidade impressionante das oliveiras. Cada cidade no topo de uma colina conta sua própria história, adicionando camadas à experiência.
O encontro com um senhor local, que em um antigo Fiat pickup ofereceu um simples "Calma" ao passar, resume a essência deste lado B da Toscana. A caminhada, mesmo com seus trechos de asfalto e a "tédio de baixo grau" inerente a longas distâncias, não precisa ser um "screensaver" constante. A beleza reside, muitas vezes, naquilo que não é imediatamente óbvio, e que as multidões deixam para trás. A Via Francigena, neste seu lado menos conhecido, convida a uma apreciação mais profunda, onde a tranquilidade e a autenticidade superam a perfeição superficial.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Outside Online — Health & Fitness




