O CEO da Vibra, Ernesto Pousada, defendeu nesta quarta-feira (24) a necessidade de previsibilidade regulatória para alterações na mistura de etanol à gasolina. Durante o Energy Summit, no Rio de Janeiro, o executivo destacou que mudanças normativas impactam diretamente a complexa cadeia logística da maior distribuidora de combustíveis do Brasil.
A posição da Vibra surge em um momento de debate sobre o aumento do teor de etanol anidro na gasolina, pauta que vinha sendo discutida pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Embora a companhia apoie a transição energética, Pousada enfatizou que qualquer ajuste, mesmo que marginal, exige planejamento rigoroso para evitar desabastecimento e ineficiências.
Desafios operacionais na distribuição
A operação da Vibra abrange mais de 200 bases de distribuição em todo o território nacional, atendendo mensalmente cerca de 30 milhões de consumidores. Segundo Pousada, a adaptação a novas regras de mistura, muitas vezes solicitada em prazos exíguos de 30 a 60 dias, impõe desafios logísticos severos. O executivo ressaltou que, na escala da empresa, oscilações de 1% ou 2% na composição do combustível representam volumes expressivos que exigem antecipação.
A previsibilidade é apresentada não apenas como um pleito corporativo, mas como um requisito para a eficiência do mercado. Sem um cronograma claro, a gestão de estoques e a movimentação de produtos entre as bases tornam-se vulneráveis a gargalos, elevando os custos operacionais que, em última instância, refletem na cadeia de suprimentos e no preço final ao consumidor.
O combate às irregularidades
Além da regulação de misturas, a integridade do mercado é uma preocupação central para a Vibra. Pousada reconheceu avanços no setor, mas classificou a evasão fiscal, a adulteração de combustíveis e a presença do crime organizado como problemas estruturais que ainda exigem combate rigoroso. A parceria com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e o Instituto Combustível Legal (ICL) é apontada como essencial.
A atuação da ANP, contudo, enfrenta um cenário de fragilidade institucional. A diretoria da agência vem defendendo a necessidade de órgãos reguladores independentes e dotados de recursos para cumprir sua missão fiscalizatória. A recente suspensão do Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis, decorrente de bloqueios orçamentários federais, ilustra a tensão entre metas fiscais e a capacidade do Estado em garantir a conformidade dos produtos.
Tensões institucionais e o futuro do setor
O debate sobre a autonomia das agências reguladoras ganhou tração no Congresso, com propostas que visam blindar orçamentos contra contingenciamentos bimestrais. A insegurança gerada pelos bloqueios financeiros preocupa não apenas as distribuidoras, mas todo o ecossistema que depende da fiscalização para coibir práticas ilícitas. A estabilidade das regras do jogo é vista como um pilar para a manutenção dos investimentos privados no país.
Enquanto o setor aguarda definições sobre a mistura de biocombustíveis e a recomposição orçamentária da ANP, a Vibra mantém sua estratégia de expansão. Com o embandeiramento de centenas de postos no último ano, a companhia sinaliza que, apesar das incertezas regulatórias, o potencial de crescimento do mercado brasileiro permanece como o principal norte para suas decisões de alocação de capital.
Perspectivas e incertezas
O cancelamento da reunião do CNPE que trataria da mistura de etanol reflete o clima de cautela em Brasília. A questão central para os próximos meses reside em saber como o governo equilibrará a busca por metas ambientais com a necessidade de um ambiente de negócios previsível para os grandes players do setor.
Acompanhar a evolução dos projetos legislativos que buscam proteger o orçamento das agências reguladoras será fundamental para entender a capacidade de fiscalização do mercado. A eficácia no combate às irregularidades dependerá, em grande medida, da autonomia técnica e financeira que a ANP conseguirá sustentar diante das pressões fiscais do governo federal.
O setor aguarda agora por sinais mais claros sobre a política de biocombustíveis, que deve conciliar as metas de descarbonização com a realidade logística das distribuidoras. A forma como essa transição será conduzida ditará o ritmo dos investimentos e a estabilidade dos preços na ponta final da cadeia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





