Em um futuro não tão distante, Los Angeles não é mais a metrópole de concreto e asfalto, mas sim um deserto de areia e poeira, onde os restos da civilização humana se misturam a uma natureza resiliente e mutante. É neste cenário especulativo que Alice Bucknell, artista multimídia, desenvolveu "The Alluvials", um projeto que começou como uma obra de vídeo em 2023 e evoluiu para um videogame imersivo em 2024. A obra convida o jogador a abandonar a perspectiva humana e a experimentar o mundo através dos olhos de seres não jogáveis (NPCs), como lobos, mariposas e até mesmo árvores, em uma jornada que questiona o impacto das mudanças climáticas e o futuro da vida na Terra.
Perspectivas não humanas em um mundo em colapso
O termo "aluvial" refere-se a materiais detríticos como argila, silte e areia, depositados por água corrente. Em "The Alluvials", Bucknell subverte essa definição, apresentando um mundo onde a água escasseia e a areia, antes confinada às praias, agora cobre a paisagem urbana. O jogo se desdobra em quatro níveis, cada um oferecendo uma imersão em ecossistemas alterados e em colapso. A escolha de colocar o jogador na pele de NPCs não é acidental; Bucknell a descreve como "mecânicas de jogo queer e ecológicas", desafiando as convenções tradicionais de jogabilidade e incentivando uma empatia profunda com o não-humano. Essa abordagem força o jogador a confrontar realidades que, como humanos, tendemos a ignorar ou subestimar, como o conhecimento intrínseco de uma mariposa ou a resiliência de uma planta em solo árido.
Explorando os níveis de "The Alluvials"
Um dos níveis mais marcantes é "Extinction Burst", onde o jogador se depara com uma floresta em chamas e uma montanha-russa de sensações visuais e ambientais. A cena inicial, com uma floresta vermelha vibrante e um leão-da-montanha espreitando por um caminho fúcsia, dá lugar a uma bacia árida preenchida por partículas brancas. Ao se aproximar de uma árvore solitária, uma pergunta etérea surge no céu: "VOCÊ É MARIPOSA OU VOCÊ É ÁRVORE?" A escolha determina a perspectiva do jogador, oferecendo vislumbres distintos da paisagem desértica. Em outras partes do jogo, o jogador pode se tornar um lobo em uma Los Angeles coberta de areia, pilotar uma embarcação pelo leito seco do Rio de Los Angeles ou caminhar por uma floresta em combustão. Essas experiências buscam oferecer uma compreensão encarnada das consequências das ações humanas, convidando à reflexão sobre o que significa viver em um planeta em constante e acelerada transformação.
O legado de "The Alluvials"
"The Alluvials" já foi exibido em diversos formatos e locais ao redor do mundo, desde o LUMINEX em Los Angeles, onde projeções das cenas de incêndio criavam um reflexo inquietante da cidade real e fictícia, até o HEK em Basel, Suíça, onde o jogo pôde ser jogado em um ambiente imersivo. A obra de Bucknell não é apenas uma crítica ao antropocentrismo, mas um convite a repensar nosso futuro. Ao nos colocar no lugar de outras formas de vida, o jogo sugere que a salvação pode residir em abandonar a lógica humana e abraçar os processos naturais. É um chamado para uma "utopia pós-humana", onde a inteligência e a sobrevivência não são mais medidas apenas pela capacidade humana, mas pela harmonia com o ecossistema global.
Perguntas em aberto para um futuro incerto
"The Alluvials" termina sem oferecer respostas fáceis, mas sim com um conjunto de questões que ecoam a urgência da crise climática. Se este é o futuro que nos aguarda, será que ele é desejável? E se não for, que caminhos podemos trilhar para alterar nosso curso? A obra de Bucknell, com sua estética deslumbrante e narrativa provocativa, nos força a encarar as consequências de um mundo onde a água se torna um luxo e a própria terra se revolta. A questão que permanece é se teremos a sabedoria e a coragem de aprender com as mariposas, os lobos e as árvores antes que seja tarde demais para reescrever nosso destino.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





