O pincel de Leonora Carrington, durante o ano de 1940, não buscava apenas a representação do mundo onírico, mas a sobrevivência psíquica em um dos momentos mais sombrios do século XX. Enquanto a Europa sucumbia à ocupação nazista, a artista britânica encontrava-se confinada em um sanatório em Santander, na Espanha, sob os cuidados do psiquiatra Luis Morales. Foi ali, entre as paredes de uma instituição que ela descreveria anos mais tarde como um lugar onde se sentia morta, que ela concebeu 'Villa Pilar'. A obra permaneceu oculta na coleção privada da família de seu médico por oito décadas, funcionando como um fragmento silencioso de uma história de exílio, trauma e resistência criativa.

O labirinto da memória e o sanatório

O período coberto pela exposição 'The Symptomatic Surreal', no Freud Museum em Londres, marca uma transição crítica na vida de Carrington. Entre 1938 e 1941, a artista enfrentou a fuga da França, a internação forçada e a eventual travessia para Nova York, onde buscaria reencontrar seu círculo surrealista. A exposição não apenas exibe a pintura redescoberta, mas também reúne cadernos de esboços que detalham o cotidiano da artista durante o tratamento psiquiátrico. Esses registros visuais, antes dispersos ou mantidos em coleções privadas, oferecem um mapa íntimo de uma mente que, mesmo sob o peso do isolamento, mantinha a urgência de registrar sua própria realidade.

A materialização de um trauma pictórico

A redescoberta de 'Villa Pilar' é, em grande medida, um feito de pesquisa institucional conduzido pelo futuro centro de arte Faro Santander. A obra foi mantida pela família do Dr. Morales após o falecimento do médico, permanecendo fora do alcance do público até que pesquisadores pudessem mediar o empréstimo. Ao lado de outra obra fundamental, 'Down Below', a pintura encapsula a estética surrealista de Carrington aplicada à sua própria desintegração emocional. A curadoria da exposição, ao colocar essas peças em diálogo com a trajetória da artista, convida o espectador a observar não apenas a técnica, mas a necessidade de externalizar o indizível através da forma.

O legado das surrealistas e o mercado

O interesse renovado pela obra de Carrington reflete uma mudança estrutural na historiografia da arte, que há anos corrige a invisibilidade das mulheres surrealistas. O título da Bienal de Veneza de 2022, 'The Milk of Dreams', inspirado diretamente em um livro da artista, serviu como um marco institucional dessa reavaliação. Esse movimento de valorização transcende o mercado de leilões, atingindo museus e centros de pesquisa que agora buscam preencher as lacunas deixadas por décadas de negligência. A exposição no Freud Museum, ao trazer esses esboços e a pintura a público, consolida Carrington como uma figura central no cânone moderno.

O que resta na tela da história

O que permanece aberto, contudo, é a extensão do impacto desses anos de confinamento na totalidade da obra posterior da artista. A transição de Carrington para o México, onde viveu até sua morte em 2011, é frequentemente lida como um renascimento, mas as sombras de Santander nunca deixaram inteiramente seu imaginário. A redescoberta de 'Villa Pilar' não encerra um capítulo, mas abre uma nova frente de investigação sobre como a arte pode servir, simultaneamente, como um cárcere e como a única chave possível para a liberdade interior. A pintura, agora exposta, permanece como um espelho de um tempo que, embora distante, continua a interpelar o presente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews