A Vollebak, marca britânica conhecida por levar materiais e conceitos de vestuário ao extremo, lançou uma de suas peças mais conceituais: o casaco FWAHBL, sigla para “For When All Hell Breaks Loose” (Para quando o inferno se instalar, em tradução livre). Trata-se de um trench coat amarelo vibrante, em uma edição limitadíssima de dez unidades, construído com o mesmo material de trajes de proteção química.

O movimento, no entanto, é mais uma performance de design do que uma promessa de segurança. Segundo reportagem da publicação de design e arquitetura Designboom, a própria Vollebak faz questão de frisar que a peça não é um equipamento de segurança certificado. O casaco foi concebido para “mau tempo e pavor existencial”, não para uma incursão em um vazamento químico real. A tese aqui não é sobre funcionalidade, mas sobre a venda de uma narrativa de resiliência.

Estética da proteção

O tecido do casaco é uma borracha de policloropreno de dupla face, desenvolvida pela Fothergill, uma tradicional fabricante britânica de materiais de proteção que fornece para o exército britânico desde o século 19. O material é projetado para resistir a produtos químicos, óleos, ozônio, chamas e intempéries, conferindo à peça um currículo técnico impressionante. O design, no entanto, subverte a função.

Em vez de discrição, a Vollebak optou por um amarelo de alta visibilidade, transformando a origem industrial do material em sua principal linguagem visual. A escolha não é acidental. O casaco não serve para se esconder, mas para ser visto. Ele apropria-se da estética da segurança industrial para criar um objeto de desejo, onde a durabilidade do material é mais um atributo de marketing do que uma garantia funcional para cenários extremos.

Um casaco ou uma franquia?

O que torna o lançamento da Vollebak notável é o ecossistema criado ao redor do produto. O casaco é o centro de um universo ficcional, entregue em uma embalagem que emula uma caixa de videogame e acompanhado de uma história em quadrinhos. A marca também produziu um trailer e está desenvolvendo um jogo, transformando o ato da compra em uma imersão em uma pequena franquia de mídia.

A estratégia posiciona a Vollebak menos como uma empresa de vestuário e mais como uma marca de entretenimento e experiência. O casaco funciona como um artefato colecionável de um mundo imaginário. É uma tática que dialoga com a cultura de “drops” do streetwear, mas elevada a um novo patamar de construção de narrativa.

No fim, a questão em aberto não é se o casaco de fato protege seu usuário do apocalipse. A discussão é sobre como a estética da preparação e a ansiedade contemporânea podem ser empacotadas e vendidas como um produto de luxo. A Vollebak não vende proteção, mas a fantasia dela — um item para quem se prepara para o fim do mundo, mesmo que apenas conceitualmente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Designboom