Uma série de decisões na elite do futebol norte-americano deixou claro quem são os novos donos do apito: os gigantes de Wall Street. A U.S. Soccer confirmou a permanência do técnico Mauricio Pochettino no comando da seleção masculina até 2030, um contrato viabilizado em grande parte por um aporte do bilionário Ken Griffin, fundador do hedge fund Citadel. No mesmo dia, a Major League Soccer (MLS) anunciou seu novo comissário: Larry Berg, co-proprietário do LAFC e veterano com três décadas na gigante de private equity Apollo Global Management.
Estes não são movimentos isolados. Juntamente com um acordo recente entre a MLS e a KKR, eles consolidam uma tendência: o futebol nos Estados Unidos está sendo reestruturado não apenas com o capital, mas com a cartilha de gestão do setor financeiro. A tese editorial é que, às vésperas da Copa do Mundo de 2026, o esporte deixou de ser apenas um jogo para se tornar uma classe de ativo, otimizada por alguns dos operadores de capital mais sofisticados do mundo.
O manual do private equity em campo
A nomeação de Berg é o sinal mais explícito dessa mudança. Em sua apresentação, o novo comissário citou sua experiência em private equity como fator decisivo para sua escolha, destacando conceitos como “senso de urgência”, “alinhar pessoas em torno de um objetivo comum” e “experiência em governança”. É a linguagem de um memorando de investimento aplicada à gestão de uma liga esportiva. A lógica é tratar a MLS e seus clubes como um portfólio de ativos a ser otimizado para o crescimento.
Essa mentalidade já está em prática. Um acordo firmado em abril entre a MLS e a KKR criou uma joint venture para gerenciar centralmente os direitos comerciais da maioria dos clubes da MLS NEXT Pro, a liga de desenvolvimento. A estrutura é um clássico do private equity: as operações de futebol (vistas como um centro de custo) ficam com os times, enquanto a nova entidade, controlada por especialistas em finanças, assume as funções que geram receita. O objetivo é escalar o retorno sobre o investimento, não necessariamente o desempenho em campo.
A nova governança dos donos da bola
O comissário que deixa o cargo, Don Garber, relembrou um conselho que recebeu no início de sua gestão: “mantenha os donos que te odeiam longe daqueles que estão indecisos”. Segundo ele, isso não se aplica mais à liga atual, cujos proprietários estariam mais “alinhados”. A leitura aqui é que esse alinhamento não é fruto de paixão, mas de uma convergência de interesses financeiros, impulsionada pela chegada de investidores institucionais como Apollo, Ares e KKR. O antigo bilionário, dono de um time por prestígio, dá lugar ao gestor de fundos, que busca retornos mensuráveis.
Apesar das tentativas de tranquilizar o mercado, afirmando que o private equity em ligas esportivas tem poder limitado, a nomeação de Berg para o cargo máximo da MLS contradiz essa narrativa. A influência de Wall Street transcendeu o papel de mero fornecedor de capital minoritário. Com um dos seus no comando, o setor financeiro não tem mais apenas um assento na mesa; ele agora é o chefe da mesa, ditando a pauta, o ritmo e as regras do jogo.
O influxo de capital e expertise de gestão promete acelerar a profissionalização e o valor comercial do futebol nos EUA. A questão que permanece em aberto é se a busca incessante por eficiência e retorno financeiro, típica do private equity, é compatível com a construção de uma cultura esportiva, um processo de natureza orgânica e de longo prazo. O jogo, agora, acontece tanto no gramado quanto nas planilhas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





