A lista de gigantes da tecnologia e do varejo que tentaram “disruptar” o setor de saúde e falharam é longa e só aumenta. Em um artigo recente, o CEO da plataforma de agendamento médico Zocdoc, Oliver Kharraz, argumenta que existe um padrão por trás desses fracassos: o playbook de inovação do Vale do Silício simplesmente não se aplica a um ecossistema tão complexo.
Segundo a análise, publicada na Fortune, a ideia de construir um sistema paralelo, escalá-lo rapidamente e forçar os incumbentes a se adaptar é uma ilusão quando se trata de saúde. A tese central é que a saúde não é um problema de tecnologia, mas um intrincado quebra-cabeça de sistemas, incentivos, regulações e fluxos de trabalho consolidados ao longo de décadas. Tentar consertá-la de fora para dentro seria uma receita para o fracasso.
O cemitério dos disruptores
Os exemplos citados por Kharraz formam um verdadeiro cemitério de projetos ambiciosos. A Haven, joint venture entre Amazon, Berkshire Hathaway e JPMorgan, foi desfeita em 2021, três anos após ser lançada para simplificar benefícios de saúde. O Walmart Health, que prometia atendimento primário e odontológico a preços baixos, anunciou em abril de 2024 o fechamento de todas as suas 51 clínicas por considerar o modelo de negócio “insustentável”.
O caso do IBM Watson Health é emblemático. Lançado em 2015 com a promessa de usar IA para revolucionar o tratamento de câncer, o negócio foi vendido em 2022 por cerca de US$ 1 bilhão, uma fração dos US$ 4 bilhões investidos pela IBM. Até mesmo startups que nasceram no setor, como a britânica Babylon Health, que chegou a ser avaliada em mais de US$ 4 bilhões, viram sua operação americana pedir falência em 2023. O erro comum, segundo a análise, é subestimar a inércia de um sistema com trilhões de dólares em infraestrutura e dezenas de milhares de instituições interconectadas.
Consertar por dentro, não por fora
A alternativa à disrupção externa é o que Kharraz chama de conserto “de dentro para fora”. Em vez de construir “jardins murados”, a inovação bem-sucedida precisa criar “pontes”. A solução não é substituir o sistema, mas conectar suas partes fragmentadas. Ele usa a própria Zocdoc como exemplo de uma abordagem que, embora mais lenta e menos glamourosa, gera progresso real em escala.
Na prática, isso significa fazer o trabalho árduo de se integrar com os sistemas existentes: conectar-se a milhares de planos de saúde, centenas de integrações de calendário de provedores e inúmeras regras de agendamento. É uma visão pragmática que reconhece que o setor não é um campo aberto (“greenfield”), mas um terreno complexo e já ocupado (“brownfield”). A inovação, nesse contexto, deve se encaixar nos “trilhos” existentes para conseguir avançar.
Com a próxima onda de inovação impulsionada por inteligência artificial, a tentação de prometer uma nova revolução é grande. No entanto, a lição das últimas décadas sugere que a tecnologia por si só não gera um sistema de saúde funcional. A ambição, portanto, talvez devesse ser redefinida: menos projetos grandiosos para colonizar o espaço e mais soluções pragmáticas para os pacientes aqui na Terra.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





