Wang Shu e Lu Wenyu, fundadores do Amateur Architecture Studio, foram anunciados como os curadores da 20ª edição da Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza, que ocorrerá entre maio e novembro de 2027. Sob o tema "Do Architecture: The Possibility of Coexistence in the Face of Real Reality", a dupla propõe um redirecionamento crítico para a prática arquitetônica contemporânea, distanciando-se de experimentos conceituais abstratos para focar em soluções concretas diante de crises ecológicas e urbanas.
A escolha de Wang e Lu sinaliza um movimento de ruptura com o foco tecnológico predominante em edições passadas. Segundo a organização do evento, o objetivo central é confrontar a desconexão entre o ambiente construído e as comunidades que ele deveria servir. O tema sugere que a arquitetura deve ser entendida como uma resposta ética e física às instabilidades globais, priorizando a materialidade e a preservação da memória em vez da comercialização acelerada de imagens.
O retorno à materialidade e ao artesanato
A trajetória de Wang Shu e Lu Wenyu é marcada pela exploração de materiais reciclados e técnicas vernaculares, elementos que agora formam a espinha dorsal da proposta curatorial para 2027. Ao defenderem que a arquitetura deve preservar a especificidade dos lugares, os curadores questionam o impacto destrutivo das construções em larga escala sobre ecossistemas naturais e contextos históricos. A proposta é clara: a prática arquitetônica precisa recuperar o saber artesanal e a continuidade histórica como ferramentas de reparação.
Para os curadores, a arquitetura tornou-se excessivamente dependente da abstração, o que a afasta da experiência vivida. Ao incentivar o "fazer" em detrimento do simples "discutir", a Bienal busca promover workshops e intervenções físicas que envolvam diretamente os participantes. Esse foco no trabalho manual e na participação coletiva reflete a crença de que a arquitetura deve ser um exercício de coexistência, integrando o novo ao antigo sem apagar as identidades locais.
Tecnologia e coexistência humana
Um dos pontos de tensão que a Bienal pretende explorar é a relação entre a inteligência artificial e a tátilidade humana. A questão central levantada pela curadoria é se as ferramentas digitais podem coexistir com a essência da construção tradicional sem comprometer a realidade física. A expectativa é que o evento investigue como estratégias ambientais passivas e ativas podem ser mediadas pela tecnologia sem sacrificar a experiência humana e a memória cultural.
Essa análise é fundamental para um setor que enfrenta a pressão constante por eficiência e velocidade. O desafio proposto por Wang e Lu não é o abandono da tecnologia, mas sua subordinação a critérios de sustentabilidade e ética. A arquitetura, nessa visão, atua como uma mediadora entre o avanço técnico e a preservação do que é intrinsecamente humano, exigindo uma reavaliação dos processos de projeto e execução atuais.
Veneza como laboratório vivo
Além das sedes tradicionais, como os Giardini e o Arsenale, a Bienal de 2027 pretende expandir suas intervenções para a própria cidade de Veneza. Os curadores enfatizam que Veneza não deve ser tratada apenas como um cenário, mas como um participante ativo, invocando a importância da conservação do patrimônio. A intenção é evitar que a cidade se torne um espaço invisível, transformando o tecido urbano em um laboratório para discussões sobre o futuro da habitação.
Essa abordagem sugere um compromisso com o território que vai além da teoria, conectando a Bienal aos problemas de urbanização e conservação enfrentados por cidades ao redor do mundo. A ênfase na educação e no engajamento direto visa garantir que as lições da Bienal perdurem para além do período de exposição, estabelecendo um precedente para práticas arquitetônicas mais enraizadas e responsáveis.
Perspectivas e incertezas futuras
O que permanece em aberto é como a indústria global de construção reagirá a esse chamado por uma arquitetura mais lenta e artesanal. A tensão entre a necessidade de escala e o desejo de especificidade local é um dilema central para arquitetos e reguladores. Observar como essa edição da Bienal influenciará os currículos acadêmicos e as políticas públicas de habitação será um exercício essencial nos próximos anos.
A Bienal de 2027 não oferece respostas definitivas, mas propõe um novo léxico para a arquitetura. Ao questionar a hegemonia do conceito sobre a matéria, Wang Shu e Lu Wenyu convidam o setor a repensar seu papel fundamental na sociedade, posicionando a construção como um ato de cuidado e continuidade. O impacto real desse movimento dependerá da capacidade dos profissionais em traduzir essa filosofia de coexistência em projetos que resistam ao tempo e à obsolescência.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





