A dinâmica das relações comerciais globais entrou em uma fase de atrito permanente, onde cúpulas diplomáticas raramente resolvem os conflitos estruturais que definem a economia moderna. Em seu novo livro, "How to Win a Trade War", Soumaya Keynes e Chad Bown argumentam que Washington está operando com uma miopia estratégica perigosa ao subestimar a sofisticação do modelo econômico chinês. Segundo os autores, a Casa Branca tem improvisado sua estratégia de comércio, enquanto Pequim executa um plano de longo prazo para dominar setores críticos como semicondutores e energia limpa.

O cerne do argumento reside na diferença fundamental de abordagem entre as duas potências. Enquanto os Estados Unidos mantêm uma resistência histórica à intervenção estatal direta, a China utiliza um sistema de comando centralizado para moldar mercados inteiros. A leitura editorial é que o sucesso chinês em setores estratégicos não é um acidente de mercado, mas o resultado deliberado de políticas que alinham demanda interna, requisitos de conteúdo local e controle estatal sobre cadeias de suprimentos essenciais.

O desafio da política industrial americana

A hesitação americana em adotar uma política industrial robusta tem custado caro à competitividade do país. Keynes e Bown destacam que, embora os EUA tenham injetado bilhões através do CHIPS Act para estimular a produção de semicondutores, faltou uma exigência de mercado que garantisse o escoamento dessa produção. Em contraste, a China não apenas financia a pesquisa e desenvolvimento, mas também garante a absorção dos produtos através de compras estatais e regulações que favorecem o consumo doméstico.

Essa lacuna estratégica é evidente na forma como a China utiliza empresas estatais para atingir objetivos nacionais, indo além da simples maximização de lucros. Essas organizações operam com horizontes temporais mais longos e acesso privilegiado a dados, o que confere ao governo chinês uma vantagem competitiva na gestão de crises e na antecipação de tendências globais. Para os autores, Washington precisa reconhecer que a competição atual não é apenas entre empresas, mas entre sistemas econômicos distintos.

O papel das corporações no xadrez global

Um ponto central da análise é a natureza das empresas multinacionais, que frequentemente atuam como agentes autônomos em meio às hostilidades comerciais. Durante as tensões, muitas corporações simplesmente redirecionaram suas cadeias de suprimentos através de terceiros países, como México e Vietnã, em vez de retornar a produção para o solo americano. Esse comportamento pragmático revela que, sem incentivos regulatórios claros, o setor privado priorizará a eficiência logística e a manutenção de margens em detrimento de objetivos geopolíticos nacionais.

Bown descreve essas empresas como "mercenárias", sugerindo que o governo não pode esperar que elas lutem suas batalhas sem uma estrutura de incentivos adequada. A tensão entre o interesse corporativo e a segurança nacional é um dos desafios mais complexos para a atual administração, que ainda busca equilibrar a proteção de indústrias domésticas com a manutenção da estabilidade das cadeias globais de valor.

Implicações para aliados e o novo normal

A estratégia de confronto direto adotada pelos Estados Unidos tem gerado efeitos colaterais imprevistos, especialmente na relação com aliados europeus. Ao abrir frentes de conflito simultâneas com a Europa, Canadá e México, Washington enfraqueceu a possibilidade de uma frente unificada contra as práticas comerciais chinesas. O resultado é um cenário de paralisia, onde o desequilíbrio de poder impede uma solução diplomática definitiva e abre espaço para uma prolongada instabilidade.

Para o ecossistema global, a mensagem é de que o sistema hegemônico anterior, onde os EUA podiam ditar as regras sem resistência, chegou ao fim. O mundo atual é caracterizado por disputas constantes onde nenhum ator consegue impor sua vontade de forma absoluta, resultando em um estado de impasse que tende a perdurar por muito tempo. A necessidade de "estudar o inimigo" torna-se, portanto, a prioridade máxima para a formulação de qualquer política externa eficaz.

O que observar daqui para frente

A grande interrogação que permanece é se os Estados Unidos conseguirão desenvolver instrumentos de política econômica que sejam, ao mesmo tempo, eficazes e compatíveis com sua estrutura democrática. A proposta de wage insurance, mencionada pelos autores como um mecanismo para proteger trabalhadores deslocados pelo comércio, exemplifica o tipo de solução pragmática e pouco glamourosa que o país precisará adotar.

O futuro da guerra comercial não será decidido apenas por tarifas, mas pela capacidade de cada nação em gerir seus recursos críticos e adaptar sua base industrial aos desafios da próxima década. A transição para um modelo de competição mais estruturado exigirá que Washington abandone dogmas econômicos obsoletos em favor de uma estratégia que, ainda que imperfeita, consiga enfrentar a realidade de um mercado global fragmentado.

A disputa por tecnologia e suprimentos essenciais, como as terras raras, é apenas o início de uma reconfiguração profunda das cadeias de valor internacionais. O cenário aponta para uma era de incertezas onde a agilidade estratégica será o diferencial entre as potências que conseguirão manter sua relevância e aquelas que ficarão presas em conflitos de retórica sem resultados práticos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune