O silêncio das prateleiras da Wellcome Collection, em Londres, está prestes a ser interrompido por um movimento que desafia as convenções tradicionais de repatriação de bens culturais. Ao anunciar a transferência de 2.000 manuscritos jainistas para a Universidade de Birmingham, a instituição não escolheu o caminho habitual de devolver os itens aos países onde foram adquiridos há um século, como o Paquistão ou a Índia. Em vez disso, a curadoria optou por entregar o acervo ao recém-criado Dharmanath Network in Jain Studies, um centro de pesquisa financiado pela diáspora jainista global, que promete converter o que antes era uma posse colonial em um ativo vivo de conhecimento religioso e cultural.
O dilema da origem e da preservação
A história desses manuscritos, que datam do século XV ao XIX, é marcada por uma geografia de incertezas. Adquiridos em 1919 pelo fundador Henry Wellcome, muitos itens vieram de uma localidade registrada apenas como Patli, na fronteira entre a Índia e o Paquistão, um lugar cujos templos desapareceram no rastro das turbulências políticas do século XX. O processo de aquisição, que teria custado cerca de 400 libras na época, é hoje visto sob a lente da ética moderna, que questiona a legitimidade de compras feitas em contextos de exploração colonial. Contudo, a decisão de não repatriar os documentos para o sul da Ásia, mas sim para uma rede acadêmica sediada no Reino Unido, sugere um reconhecimento prático de que a preservação física e a interpretação acadêmica podem, por vezes, divergir da soberania territorial.
A nova arquitetura da custódia
O mecanismo dessa transferência reside no conceito de colaboração transnacional. Ao aliar-se ao Institute of Jainology, a Wellcome busca garantir que o acesso ao material não seja apenas um exercício de posse, mas um esforço de tradução e interpretação. O Dharmanath Network, estabelecido em 2023, funciona como uma ponte entre a academia ocidental e a fé jainista, permitindo que especialistas e membros da comunidade interpretem textos em sânscrito, prácrito e línguas vernáculas indianas. A estratégia é clara: maximizar o impacto intelectual e religioso do acervo, transformando um objeto de estudo estático em uma biblioteca acessível para uma comunidade global que, embora dispersa, mantém o interesse na preservação de sua filosofia.
Tensões entre ética e acesso
Essa abordagem levanta questões fundamentais sobre quem detém o direito de definir o destino do patrimônio material. Enquanto reguladores e ativistas frequentemente pressionam pela devolução incondicional aos Estados-nação, a Wellcome propõe um modelo onde a 'comunidade de prática' — aqueles que efetivamente leem, estudam e vivem o conteúdo dos textos — assume o protagonismo. Para o ecossistema de museus, esse precedente pode ser visto como uma forma de mitigar a culpa histórica sem desmembrar coleções que, ao longo de décadas, tornaram-se pilares de pesquisa em solo europeu. A tensão, contudo, permanece: até que ponto a custódia por instituições ocidentais, mesmo que sob gestão de especialistas locais, substitui a reparação histórica completa?
O futuro da memória compartilhada
O que resta, após a poeira das negociações baixar, é a imagem de um acervo que nunca retornou para casa, mas que tampouco permanece confinado ao esquecimento colonial. A transição para Birmingham é um teste para a eficácia dessa diplomacia cultural, na qual a legitimidade é conquistada através do uso, e não apenas da posse. Observar o desdobramento desse projeto nos próximos anos será crucial para entender se esse modelo de 'repatriação intelectual' é uma solução sustentável ou apenas uma forma refinada de manter o status quo. Resta saber se o acesso garantido a pesquisadores e fiéis será suficiente para apagar as cicatrizes de um passado onde o valor de um manuscrito era medido em rupias, e não em importância espiritual.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





