Wendell Berry, o poeta, romancista e agricultor que se tornou a consciência agrária da América, faleceu aos 92 anos. Por mais de meio século, de sua fazenda no Kentucky, Berry construiu uma obra que funciona como um antídoto lento e deliberado para a velocidade e a abstração do mundo moderno. Sua crítica não era apenas ao agronegócio industrial, mas à própria noção de progresso como um vetor inevitável e sempre desejável.

Em um ecossistema de inovação obcecado por escala, disrupção e crescimento exponencial, as ideias de Berry parecem pertencer a outro século. No entanto, sua morte ocorre em um momento em que seu pensamento nunca foi tão relevante. O ator e artesão Nick Offerman, conhecido por seu papel como Ron Swanson em Parks and Recreation, emergiu como um dos mais visíveis e eficazes evangelistas do legado de Berry. Uma entrevista sua, republicada pelo Lit Hub, serve como um guia para decifrar a pertinência de uma filosofia que prega limites em uma era que não reconhece nenhum.

A heresia da suficiência

O cerne da filosofia de Berry, como articulado por Offerman, é uma heresia para a mentalidade do Vale do Silício: a busca pela suficiência. Em vez de perguntar “como podemos crescer mais?”, Berry pergunta “o que é suficiente?”. Offerman resume as lições que absorveu do autor: “Estabeleça limites para si mesmo. Evite o consumismo. Desacelere seu ritmo”. São princípios que colidem frontalmente com a cultura de otimização e produtividade que define o setor de tecnologia. Para Berry, o sucesso não se media em acres cultivados ou rodadas de investimento, mas na saúde da terra, da família e da comunidade.

Essa visão de mundo se reflete na própria relação entre Offerman e Berry. O ator passou anos tentando obter os direitos para adaptar a ficção de Berry, recebendo recusas polidas em cartas datilografadas. A porta só se abriu quando o filho de Berry, Den, reconheceu o nome de Offerman não da televisão, mas de um artigo na revista Fine Woodworking. Para o clã Berry, o fato de Offerman ser um artesão que trabalha com as mãos — que construiu um gabarito para aplainar lajes de madeira — valia mais do que sua fama em Hollywood. O episódio é uma alegoria perfeita do universo de Berry: o valor reside no trabalho concreto e na habilidade manual, não na notoriedade abstrata da tela.

O manual contra o metaverso

O legado de Berry não é apenas um conjunto de ensaios e poemas; é um modelo prático. Offerman destaca o trabalho do The Berry Center, hoje capitaneado pela filha de Wendell, Mary Berry. Programas como o Our Home Place Meats, uma cooperativa que garante o bem-estar animal e a saúde financeira dos pequenos fazendeiros, são a tradução da filosofia em um negócio sustentável. É uma alternativa funcional à agricultura industrial, focada na saúde “do agricultor, da fazenda, do animal e do consumidor”. Enquanto a tecnologia busca resolver a alimentação com carne de laboratório e logística otimizada por IA, a solução de Berry é radicalmente analógica: fortalecer a economia local e as relações de confiança.

O paradoxo de um ator famoso promovendo um pensador que recomendava “evitar as telas e o que elas tentam vender” não passa despercebido. Offerman se vê como um “bom líder de torcida” para os esforços da família Berry, usando sua plataforma para amplificar uma mensagem de contracultura. Ele entende que seu papel é ser uma ponte, levando a sabedoria de um fazendeiro do Kentucky para uma audiência global que, embora imersa no digital, anseia por autenticidade e propósito. As obras de Berry, agora também em audiobooks narrados por Offerman, encontram novos canais para questionar o presente.

O trabalho de Wendell Berry não oferece um mapa, mas uma bússola. Poucos seguirão seu caminho literalmente, abandonando a cidade para cultivar a terra. Sua verdadeira contribuição, no entanto, é fornecer um framework intelectual e moral para questionar as premissas do nosso tempo. Em uma era de soluções tecnológicas para problemas criados pela própria tecnologia, a voz de Berry, amplificada por discípulos improváveis, serve como um contraponto essencial: um lembrete de que o verdadeiro progresso pode, por vezes, significar a sabedoria de saber parar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub