A experiência começava no elevador. Uma viagem expressa de quase 400 metros que terminava em um lobby espelhado, gravado com cenas de Nova York. Ali, nos andares 106 e 107 da Torre Norte do World Trade Center, ficava o Windows on the World. Com janelas do chão ao teto, o restaurante oferecia mais do que uma refeição: vendia a própria cidade como espetáculo, um campo de luzes cintilantes à noite, um formigueiro de atividade durante o dia. Aberto em 1976, o complexo de 4.600 metros quadrados se tornou um emblema da Nova York cosmopolita e ambiciosa.

Até a manhã de 11 de setembro de 2001, o Windows on the World era o restaurante de maior faturamento dos Estados Unidos, gerando US$ 40 milhões anuais. Naquele dia, o serviço de café da manhã estava em andamento quando o voo 11 da American Airlines atingiu a torre, selando o destino de todos que estavam acima da zona de impacto. Os 79 funcionários de plantão e 91 clientes e participantes de uma conferência no local estavam entre as quase 3.000 vítimas do dia. O restaurante que vendia a vista de Nova York foi consumido por ela, transformando um ícone de celebração em um memorial de perda.

O farol de Lower Manhattan

Quando o restaurateur Joe Baum concebeu o Windows on the World, a região de Lower Manhattan não era o centro financeiro e turístico que se conhece hoje. Nos anos 1970, a cidade enfrentava uma crise, e a parte sul da ilha era vista como decadente. O restaurante, segundo uma reportagem do Business Insider, nasceu com a missão de ser um "embaixador brilhante para Nova York", um oásis de sofisticação e uma aposta na revitalização urbana. Era um projeto monumental para servir não apenas os milhares de funcionários das torres, mas para atrair turistas e os próprios nova-iorquinos.

A aposta foi bem-sucedida. O local se tornou o palco para almoços de negócios, pedidos de casamento e celebrações de todos os tipos. Era um lugar para ver e ser visto, frequentado por políticos, líderes empresariais e celebridades. Seu design original, de Warren Platner, e a posterior reforma por Hugh Hardy após o primeiro atentado ao WTC em 1993, criaram um ambiente que era ao mesmo tempo moderno e acolhedor, sempre com a cidade como protagonista.

A adega que mudou a América

O cardápio, inicialmente co-criado pelo célebre chef James Beard, refletia a identidade de Nova York como um caldeirão de culturas. Mas talvez o maior legado do restaurante para a gastronomia americana tenha sido seu programa de vinhos. Kevin Zraly, contratado com apenas 25 anos para ser o mestre da adega, montou uma carta que se tornou uma das mais influentes do país. O Windows on the World chegou a ser o restaurante que mais vendia vinho no mundo, e sua sala de jantares privativos, a "Cellar in the Sky", ajudou a popularizar a harmonização de vinhos com pratos nos Estados Unidos.

O fim trágico do restaurante significou também a perda de uma adega avaliada em mais de US$ 1 milhão. Zraly não estava no prédio naquela manhã. O chef executivo, Michael Lomonaco, também sobreviveu por acaso: ele se atrasou para o trabalho ao parar em uma ótica no térreo para ajustar seus óculos. Do lado de fora, ele viu o prédio em chamas e, segundo seu relato, funcionários acenando com toalhas de mesa brancas das mesmas janelas que um dia emolduraram a glória de Nova York.

Lomonaco dedicou-se posteriormente a um fundo de ajuda para as famílias dos funcionários do setor de restaurantes vitimados nos ataques. O Windows on the World não existe mais, mas sua história perdura. Não apenas como um marco na gastronomia, mas como um símbolo de uma ambição que tocava o céu e que, por um momento, fez o mundo parecer um lugar que se podia observar de cima, inteiro e em paz, a partir de uma mesa de jantar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider