A Workday, gigante do software de gestão de RH e finanças, está traçando uma nova estratégia de monetização para seus agentes de Inteligência Artificial (IA), com o objetivo de capturar uma fatia maior dos orçamentos de seus clientes. Em vez de se limitar aos gastos tradicionais com TI, a empresa quer que os custos de seus agentes de IA sejam financiados a partir de verbas destinadas à mão de obra, terceirização e serviços. Essa mudança de foco reflete a crescente capacidade da IA de automatizar tarefas antes realizadas por humanos, reconfigurando o cálculo de custos para as empresas.
Durante sua conferência anual em Las Vegas, o CEO da Workday, Aneel Bhusri, indicou que os ganhos de produtividade proporcionados pela IA poderiam permitir que a empresa crescesse com um número menor de novas contratações internas. Contudo, para os clientes, a precificação dos serviços de IA pode mudar drasticamente. A expectativa da Workday é que a cobrança pelos agentes de IA seja baseada no uso efetivo, em vez do modelo tradicional de licenciamento por número de funcionários. Joel Hellermark, Chief AI Officer da empresa, explicou que a automação de tarefas de RH, por exemplo, pode expandir o mercado da Workday "além dos orçamentos de software para os gastos com mão de obra e serviços", onde os clientes já investem "dezenas de milhões de dólares em terceirização". Hellermark ressaltou que os agentes de autoatendimento já aumentaram em 25% as taxas de resolução de tarefas comuns, sinalizando um potencial significativo para reduzir os custos de terceirização de seus clientes.
O Deslocamento do Orçamento de TI para o de RH
A estratégia da Workday representa uma mudança de paradigma na forma como o software empresarial é precificado e percebido. Tradicionalmente, investimentos em novas tecnologias de software eram alocados em departamentos de TI. No entanto, com a IA cada vez mais integrada em funções de negócios específicas, como RH e finanças, o custo desses avanços começa a transbordar para os orçamentos operacionais dessas áreas. Ao propor que os clientes paguem por agentes de IA a partir de verbas de pessoal e terceirização, a Workday não apenas reconhece essa mudança, mas a impulsiona ativamente. A empresa argumenta que a automação de tarefas de RH, por exemplo, pode não apenas otimizar processos internos dos clientes, mas também liberar recursos que antes eram gastos com contratação de pessoal ou com fornecedores externos de serviços. A promessa é que a IA da Workday possa gerenciar e resolver questões comuns com maior eficiência e menor custo, redefinindo o valor percebido do software empresarial.
Monetização por Consumo e o Modelo "Flywheel"
Aneel Bhusri expressou sua visão de que os clientes pagarão pelos agentes de IA com base no consumo, um modelo que ele compara a um "flywheel" – um sistema que, uma vez em movimento, ganha impulso e se torna cada vez mais eficiente. Esse modelo de "pagar pelo que usa" contrasta com o modelo de assinatura baseado em número de usuários, que tem sido o padrão da indústria de software por décadas. Bhusri vê um paralelo com os custos que a própria Workday paga a provedores de nuvem como Google Cloud, AWS e Azure, indicando um interesse em capturar essa receita de infraestrutura de dados e processamento de IA. A recente expansão da Workday para acesso "headless" aos seus sistemas de RH e finanças, permitindo que agentes de IA interajam com dados e executem tarefas sem a necessidade de navegar pela interface do usuário, é um passo fundamental para viabilizar esse modelo de consumo. Ferramentas como o Model Context Protocol (MCP) e a Workday Data Cloud garantem que o acesso aos dados seja controlado, seguro e auditável, suportando a integração com outras plataformas e a análise de dados operacionais e históricos.
Implicações para o Mercado de RH e Concorrência
Essa abordagem da Workday tem implicações significativas para o mercado de gestão de RH e para a concorrência. Ao mirar nos orçamentos de pessoal e terceirização, a empresa está efetivamente competindo não apenas com outros fornecedores de software de RH, mas também com empresas de outsourcing e até mesmo com a própria capacidade interna de uma organização de gerenciar suas tarefas de RH. Se a Workday conseguir entregar as promessas de automação e redução de custos, poderá forçar outros players do setor a reavaliar seus modelos de precificação e suas ofertas de produtos. A capacidade de usar IA para "não contratar em áreas onde estávamos contratando no passado", como mencionado por Bhusri, sugere um futuro onde a força de trabalho humana em funções administrativas e de suporte pode ser significativamente reduzida, com a IA assumindo um papel cada vez mais central. Isso pode gerar pressão sobre os provedores de serviços de terceirização, que precisarão demonstrar um valor agregado que a IA da Workday não consiga replicar.
Perguntas em Aberto e o Futuro da Gestão de Talentos
A estratégia da Workday levanta diversas questões em aberto sobre o futuro da gestão de talentos e a relação entre empresas e seus funcionários. Se a IA se tornar a principal interface para muitas funções de RH, como as empresas garantirão que a experiência do funcionário permaneça humana e engajadora? Além disso, qual será o impacto a longo prazo na força de trabalho, à medida que mais tarefas administrativas e de suporte forem automatizadas? A centralização da responsabilidade pela IA, que Bhusri buscou ao retornar ao cargo de CEO, indica a importância estratégica que a empresa atribui a essa tecnologia. No entanto, a velocidade de adoção e a aceitação por parte dos clientes em deslocar seus orçamentos de RH para o consumo de IA ainda são incertas. O mercado observará atentamente como essa nova estrutura de custos se desdobrará e se a promessa de maior eficiência se traduzirá em economia real para as empresas.
A iniciativa da Workday de vincular o custo de seus agentes de IA diretamente aos orçamentos de pessoal e terceirização sinaliza uma evolução ousada na monetização de software empresarial, posicionando a IA não apenas como uma ferramenta de otimização de TI, mas como um substituto direto de custos operacionais e de mão de obra. O sucesso dessa abordagem poderá redefinir as expectativas de mercado e as dinâmicas de gastos em funções críticas de negócios.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Register





