O mercado de açúcar pode ainda não ter precificado totalmente o aperto na oferta brasileira, mesmo diante da recente alta nas cotações internacionais. Essa é a avaliação da XP Investimentos, que revisou para baixo suas estimativas para a safra de cana-de-açúcar do Centro-Sul em 2026/27, indicando potencial para preços sustentadamente elevados da commodity. A análise, divulgada na quinta-feira (15), reflete a combinação de fatores climáticos adversos e a deterioração das perspectivas de produção.
Aperto na Produção e Qualidade da Cana
A XP cortou sua projeção de moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul em 12,4 milhões de toneladas, para 613,5 milhões de toneladas. Essa revisão leva em conta os resultados já observados e as previsões meteorológicas atualizadas para outubro, que indicam excesso de chuvas. Adicionalmente, o clima impactou a qualidade da matéria-prima, com uma redução de 2,3 quilos por tonelada na estimativa de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR). Com menor disponibilidade e qualidade da cana, a XP reduziu sua estimativa de produção de açúcar em aproximadamente 1,5 milhão de toneladas. Os analistas da XP consideram que a perspectiva de um mix de produção mais açucareiro até o fim da safra, favorecido pela paridade entre açúcar e etanol, não será suficiente para compensar a redução da moagem e do ATR.
Oferta Global em Foco
As cotações internacionais do açúcar avançaram cerca de 12% no último mês, impulsionadas por entregas menores que o esperado, melhora marginal da demanda e deterioração das perspectivas de produção na Europa e no Brasil. No entanto, o principal fator de sustentação dos preços, segundo a XP, continua sendo a oferta. A menor moagem e o ATR mais fraco no Brasil ocorrem em um momento em que outras regiões produtoras também enfrentam dificuldades. A XP avalia que o mercado começa a abandonar a premissa de que o Brasil conseguiria compensar integralmente os problemas de produção em outros países exportadores relevantes. Com os impactos climáticos sobre a safra brasileira e mais uma temporada europeia decepcionante, os riscos para a oferta global permanecem concentrados em uma disponibilidade menor do que a anteriormente esperada.
Cana Bisada e Impacto no Etanol
Embora a revisão represente uma perda de produção no curto prazo, parte da cana que não for colhida nesta temporada poderá ser aproveitada no ciclo seguinte, em um fenômeno conhecido como cana bisada. A XP estima que aproximadamente 27 milhões de toneladas de cana sejam carregadas para a safra 2027/28. Esse volume poderá ampliar a disponibilidade de matéria-prima e favorecer o potencial de produção de etanol no próximo ciclo. No curto prazo, entretanto, o efeito é de maior restrição no balanço de açúcar, pois a menor moagem e a redução do ATR limitam a oferta brasileira. A XP também reduziu em cerca de 800 milhões de litros sua estimativa de produção de etanol em 2026/27, principalmente devido às premissas menores de moagem e ATR, com a produção permanecendo pressionada até o encerramento da safra. Apesar disso, os estoques atuais de etanol ainda são considerados confortáveis pelo banco, embora, ajustados pela sazonalidade, continuem em queda, indicando demanda saudável.
Perspectivas e Perguntas em Aberto
A instituição considera que uma safra brasileira de açúcar abaixo de 37 milhões de toneladas é difícil de conciliar com uma perspectiva baixista para os preços no médio prazo. A XP acredita que o mercado ainda não incorporou completamente esse cenário de aperto na oferta global. A combinação de uma safra brasileira menor com as dificuldades em outras regiões produtoras sugere que a oferta pode ser o principal driver de preços nos próximos meses. Resta saber quão rápido o mercado ajustará suas expectativas e se a demanda global será capaz de absorver a oferta restrita sem novas escaladas de preço. A dinâmica entre a oferta limitada e a demanda resiliente será crucial para definir o comportamento dos preços do açúcar no médio prazo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





