A China não almeja destronar o dólar como a moeda de reserva global, mas sim estabelecer o yuan como uma alternativa estratégica para se proteger de sanções financeiras americanas. Essa é a tese defendida por Zongyuan Zoe Liu, pesquisadora sênior do Council on Foreign Relations, em artigo recente para a Foreign Affairs. A ambição de Pequim não é a liderança, mas sim uma posição de "serviço em caso de aperto", comparando o yuan à Pepsi em relação à Coca-Cola.

O Jogo de Posicionamento Geopolítico

A internacionalização do yuan, ou renminbi, é vista por Liu não como um movimento para assumir as responsabilidades de uma moeda de reserva global, mas sim como uma estratégia de autodefesa. Tornar o yuan uma moeda dominante implicaria a abertura dos mercados de capitais chineses, o que poderia ameaçar o controle do Partido Comunista sobre o fluxo de capital. Além disso, elites chinesas utilizam suas posses em dólares no exterior como uma forma de seguro contra perseguições políticas domésticas. Portanto, manter o dólar no topo, mas com uma alternativa viável, permite à China mitigar o risco de ser isolada financeiramente, um cenário que se tornou evidente com as sanções impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia.

Mecanismos de Internacionalização e Limitações

Para alcançar seu objetivo, a China tem promovido ativamente o uso do yuan em mais de cem países e em diversos mercados de commodities. O sistema Cross-Border Interbank Payment System (CIPS) já conta com mais de 1.800 participantes, facilitando pagamentos internacionais. No entanto, esse volume ainda é uma fração ínfima do sistema dominado pelos EUA. A internacionalização completa exigiria que o yuan fosse não apenas uma moeda de pagamento, mas também de precificação, financiamento, transferência de risco e reinvestimento. Embora a China esteja avançando na precificação de commodities em yuan e no aumento do empréstimo em moeda local para estrangeiros, o reinvestimento de saldos em yuan por investidores internacionais permanece um gargalo. O controle de capital imprevisível de Pequim e o acesso limitado a ativos em renminbi para estrangeiros (apenas 1,6% do mercado de títulos, contra 27% nos EUA) dificultam a criação de um ecossistema robusto.

O Potencial do "Yuan Verde" e o Futuro do Petrodólar

Liu sugere que a China poderia consolidar a dominância do yuan em setores estratégicos, como minerais críticos e equipamentos de energia limpa, criando um "yuan verde". Se a China dominar esses ecossistemas industriais, poderá precificar exportações essenciais em renminbi, estabelecendo uma base para competir com o "petrodólar". A atual crise no Oriente Médio, com dúvidas sobre a capacidade dos EUA de garantir o tráfego no Estreito de Ormuz, levanta questões sobre a sustentabilidade do petrodólar, que historicamente se baseou em um acordo entre a Arábia Saudita e os EUA. Relatos de pagamentos em yuan por petróleo podem indicar um catalisador para a erosão da dominância do dólar, sinalizando o início de um "petroyuan".

Perguntas em Aberto

A trajetória do yuan como uma moeda secundária confiável ainda enfrenta obstáculos significativos. A capacidade da China de equilibrar a internacionalização do yuan com o controle de capital doméstico e a estabilidade política será crucial. Além disso, a resposta global e a aceitação de um "yuan verde" como alternativa ao petrodólar dependerão da evolução das tensões geopolíticas e da transição energética global. O cenário monetário internacional está em fluxo, e a ascensão do yuan, mesmo que em um papel secundário, redefine a dinâmica de poder financeiro.

O desenrolar dessa rivalidade monetária, com o yuan buscando um espaço estratégico em vez de liderança, continuará a moldar o sistema financeiro global e as relações internacionais nas próximas décadas. A forma como outros países e blocos econômicos responderão a essa nova dinâmica definirá o futuro da ordem monetária.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune