A cidade de Zaragoza, no norte da Espanha, foi recentemente agraciada com o título de Capital Verde Europeia para 2028. A distinção, anunciada em Guimarães, Portugal, reconheceu a solidez da governança da cidade, seu compromisso de longo prazo com a sustentabilidade e a combinação de ação ambiental, resiliência social e participação comunitária. O prêmio, que inclui 600.000 euros, prevê cerca de 150 ações para o ano de celebração, com a prefeitura destacando seus mais de 171.000 árvores e 11 milhões de metros quadrados de áreas verdes, afirmando que 66% da população tem um parque a menos de 300 metros.
No entanto, a celebração do título europeu contrastou abruptamente com protestos locais. Moradores e ativistas expressaram descontentamento com reformas urbanas que resultaram na remoção de árvores antigas, especialmente na praça de San Miguel. A Mesa do Árbol, um coletivo recém-formado por entidades vizinhas, ecologistas e cidadãos, enviou uma carta ao júri europeu antes da decisão, argumentando que Zaragoza ainda não merecia o título, pois a cidade verde se constrói "cuidando melhor", não apenas plantando mais. A plataforma alega que a cidade perdeu cerca de 10.000 árvores desde 2022, um número que, segundo eles, reflete cortes em manutenção e redução de controles.
O Contraste entre o Discurso e a Prática
A nomeação de Zaragoza como Capital Verde Europeia é um reconhecimento significativo de seus esforços em sustentabilidade. O júri europeu destacou a visão de longo prazo da cidade e sua capacidade de integrar aspectos ambientais, sociais e de participação. Contudo, as ações recentes no espaço público, como a reforma da praça de San Miguel, levantaram questionamentos sobre a aplicação prática desses princípios. A substituição de árvores maduras por estruturas como pérgolas e o plantio de exemplares jovens, que levam anos para oferecer os mesmos benefícios ambientais e de sombreamento, geraram críticas severas. A prefeitura, por sua vez, defende que as remoções são baseadas em critérios técnicos e de segurança, atribuindo perdas de arbolado em décadas passadas a gestões anteriores e anunciando planos de plantio para compensar as perdas.
A Regra 3-30-300 e a Realidade Zaragozana
Organizações como Amigas de la Tierra e a Universidade Politécnica de Madri (UPM) aplicaram à realidade de Zaragoza a regra 3-30-300 da Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa diretriz sugere que as pessoas devem ter ao menos três árvores visíveis de suas casas, 30% de cobertura arbórea em sua vizinhança e acesso a uma área verde de qualidade a menos de 300 metros. Sob essa ótica, o relatório indica que 63% dos habitantes de Zaragoza vivem a mais de 300 metros de uma zona verde de qualidade. Os bairros de menor renda, como Delicias, Oliver e Las Fuentes, são os mais afetados, com ruas que carecem de qualquer arborização. Essa disparidade na distribuição de áreas verdes levanta preocupações sobre a equidade ambiental na cidade.
Implicações para o Futuro da Cidade
A situação em Zaragoza expõe uma tensão comum em muitas cidades europeias: o desafio de conciliar o desenvolvimento urbano e a modernização de espaços públicos com a preservação e expansão de áreas verdes. O título de Capital Verde Europeia confere a Zaragoza uma plataforma para liderar pelo exemplo, mas também a coloca sob escrutínio. A forma como a cidade gerenciará suas árvores, equilibrando necessidades de segurança, infraestrutura e bem-estar da população, será crucial. A comunidade local e as organizações ambientais esperam que o título inspire uma gestão mais cuidadosa e integrada, onde o crescimento urbano não ocorra às custas do patrimônio arbóreo existente, garantindo que a designação de "verde" seja merecida em todos os aspectos.
O debate em Zaragoza reflete uma questão mais ampla sobre o que realmente constitui uma cidade verde. Enquanto a União Europeia reconhece os esforços de longo prazo e a governança, os cidadãos vivenciam o impacto imediato das decisões urbanísticas. O futuro da Capital Verde Europeia de 2028 dependerá da capacidade da cidade de harmonizar essas diferentes perspectivas, transformando o reconhecimento em ações concretas que beneficiem tanto o meio ambiente quanto seus habitantes, garantindo que a promessa de sustentabilidade se traduza em um ambiente urbano mais saudável e resiliente para todos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





