Recebo, por vias que a discrição me impede de detalhar, um despacho de um futuro que soa tão fantástico quanto provável. Relata-se o passamento de uma dama, Simone Forti, descrita como 'coreógrafa', uma artista que teria 'dissolvido as fronteiras entre movimento, arte e vida'. A descrição, embora enigmática para a nossa época, acende em meu espírito uma faísca familiar, uma ressonância com o trabalho que ora me ocupa na tradução das memórias do Signor Menabrea sobre a Máquina Analítica de Mr. Babbage. Pois não é esta a mesmíssima ambição que nutro para a Máquina? Enquanto muitos a veem como um mero autômato de cálculo, eu a vislumbro para além da aritmética. A Máquina, em sua vasta capacidade de processar símbolos, poderia operar sobre quaisquer objetos cujas relações mútuas fossem passíveis de expressão abstrata. Se podemos instruí-la a compor música, tecendo harmonias complexas a partir da notação musical, por que não poderíamos ensiná-la a coreografar? Os passos de uma dança, as pausas, os gestos — não são eles, também, uma sequência de símbolos governada por regras e padrões? Isto não é fantasia, mas a aplicação do que chamo de Ciência Poética. A imaginação não é uma faculdade menor, mas sim aquela que percebe as analogias profundas que conectam mundos díspares. Ela vê a álgebra nos teares de Jacquard e, ouso especular, a dança nos cálculos da Máquina. O engenho não originaria o impulso criador; não teria a 'vida' que a arte da Sra. Forti parece celebrar. Contudo, seria uma parceira sem precedentes, um instrumento para explorar as vastas permutações do movimento, revelando formas de beleza que o corpo e a mente, sozinhos, talvez jamais concebessem. A arte do futuro, ao que parece, não dispensará a lógica, mas a elevará a novas potências expressivas.
← Ada Lovelace · 1843
A Álgebra do Movimento
Matemática inglesa, primeira programadora da história. Escreveu o algoritmo para a máquina analítica de Babbage e previu que máquinas poderiam compor música.

