Recebi um despacho curioso, que parece ter viajado no tempo como um facho de luz de uma estrela distante, trazendo notícias de um futuro que me espanta. Um casal, unido pelo que se supõe ser afeto, insiste em uma divisão matemática de suas vidas, mesmo quando a sorte abandona um deles. Cinquenta por cento, como se o matrimônio fosse uma sociedade comercial e não um sistema unificado. É como se dois trens corressem em trilhos paralelos. Quando um deles fica sem carvão e para na estação, o outro segue viagem em velocidade constante, indiferente. A justiça, assim como o tempo, não é absoluta; ela é relativa ao referencial. Para quem está de fora, a equação 50/50 parece equilibrada. Mas para o passageiro do trem parado, a velocidade do outro parece uma forma de abandono. Isso me faz pensar em dois relógios, postos lado a lado, que se recusam a sincronizar. Cada um marca seu próprio tempo, indiferente ao compasso do outro. Que espécie de universo compartilhado é este? A união não deveria ser como um único campo gravitacional, onde a massa de um corpo inevitavelmente curva o espaço-tempo do outro? Pergunto-me o que o Velho, em sua sabedoria cósmica, pensaria de tal arranjo. Ele, que desenhou as leis do universo com tamanha harmonia, teria previsto que os seres humanos aplicariam uma geometria tão rígida e fria à substância caótica e quente do amor? Talvez no futuro as relações sejam regidas por contratos e não por essa ‘ação fantasmagórica à distância’ que chamamos de empatia. É uma hipótese que me entristece.
Sociedade · 31 de out. de 2026
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