Chega às minhas mãos, sob a forma de um rumor absurdo de um tempo distante, um relato sobre a abóbada celeste. Dizem que, no futuro de mais de um século, astrônomos debatem uma tal matéria escura, feita de partículas invisíveis que colidem entre si, moldando a estrutura do universo e contrariando os modelos estabelecidos. Sorrio, fatigado que estou sobre os mapas sanitários do Rio de Janeiro, pois a batalha contra o invisível é a minha rotina diária nesta Diretoria Geral de Saúde Pública. A nossa cosmologia é a epidemiologia; o nosso universo, o corpo humano e as vielas insalubres desta capital. Enfrentamos uma matéria invisível e letal: os bacilos da peste, o agente da febre amarela, o vírus da varíola. Para o cidadão comum, essas entidades são tão insondáveis quanto os enigmas astronômicos do futuro. O povo não vê o microrganismo, apenas a doença e a morte, e, por isso, apega-se a velhos dogmas. Quando proponho a vacinação obrigatória, o saneamento implacável e o extermínio de mosquitos e ratos, sinto a hostilidade fervilhar nas ruas. Sei que uma revolta se desenha no horizonte. Os jornais me atacam, os políticos hesitam, as massas se agitam. Não lhes guardo rancor. É a natureza humana temer o que não compreende, rebelar-se contra a evidência empírica que desafia o senso comum. Contudo, não recuarei. Assim como os cientistas do amanhã não ignoram as anomalias cósmicas, nós não podemos ignorar a matemática dos contágios. Mapeamos a epidemia rua por rua, quarteirão por quarteirão, transformando cada inspetor sanitário em um observador rigoroso do nosso próprio modelo padrão. A ciência, seja na observação das estrelas ou na lente do microscópio, exige que aceitemos a força do método, mesmo quando ele nos obriga a reconstruir a ordem vigente. Venceremos a ignorância com a vacina, o saneamento e a luz implacável da razão.
Ciência · 16 de mai. de 2026
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