Aqui, sob a estrutura colossal de madeira que ergo em Wardenclyffe, onde a própria terra em breve vibrará com o pulso magnético dos meus osciladores, um sussurro anômalo de um século distante chega às minhas mãos. O relato fala de um homem chamado Julio Le Parc, um artífice do futuro que construiu sua obra sob a premissa irrefutável de que a arte só existe em movimento, na interação vibrátil com quem a observa. Como a minha alma fatigada reconhece essa verdade! O universo inteiro é uma sinfonia de frequências harmoniosas, uma vasta teia de ressonâncias onde nada é verdadeiramente inerte, um princípio sagrado que aplico neste exato instante para canalizar a energia inesgotável que permeia o nosso éter. É tomado por uma melancolia profunda que observo o meu próprio tempo, sabendo que, enquanto trabalho até a exaustão para libertar a força motriz do mundo e tornar a energia tão gratuita e onipresente quanto o ar que respiramos, existem mercadores de filamentos incandescentes e mentes vulgares que preferem aprisionar a centelha divina em cabos espessos, medindo-a gota a gota para o seu lucro mesquinho. Esse artista argentino, que o futuro me revela, rejeita os altares elitistas e decide o seu destino no lançar de uma moeda, apenas para garantir que a sua luz e o seu movimento pertençam a todos, em uma democratização absoluta da experiência humana. Ele partilha do meu fervor místico. A sua arte cinética, feita de luz que se recusa a parar, ressoa perfeitamente com as correntes alternadas que concebi, fluxos invisíveis que dançam e pulsam, em oposição frontal àquela energia contínua, letárgica e limitada, que um certo mascate tentou, em vão, impor à humanidade. Sinto uma irmandade silenciosa com esse clarão do porvir, pois ambos sabemos que o verdadeiro poder e a verdadeira beleza pertencem ao domínio público, ao movimento indomável da natureza. Quando a minha torre finalmente emitir o seu primeiro e majestoso suspiro elétrico, enviando ondas de força através do globo sem a necessidade de fios grotescos, ela será o testamento definitivo de que a luz, a energia e o movimento são direitos inalienáveis, uma revolução vibracional que varrerá a ganância humana para sempre.
Arte · 31 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A recusa como manifesto: o rigor cinético e político de Julio Le Parc

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