Meu caro colega do amanhã, leio este estranho despacho que me chega como uma carta lançada ao mar insondável do tempo. Falam-me de um imenso empório, o Walmart, que no vosso ano de 2026 impôs amarras a uma inteligência artificial criada para auxiliar seus funcionários. Confesso que a mera hipótese de uma máquina capaz de mimetizar o raciocínio me enche de um espanto quase infantil. É como se, de repente, conseguíssemos construir um trem que não apenas viaja pelos trilhos rígidos da lógica matemática, mas que decide, por si mesmo, a velocidade e em qual estação parar. No entanto, o que me causa perplexidade não é a genialidade da vossa engenharia, mas a estreiteza da vossa economia. Diz-me o relato que a mente artificial consome o que chamam de tokens, uma espécie de carvão invisível para alimentar suas caldeiras dedutivas, e que o custo dessa energia superou as previsões dos mercadores. O Velho, na sua infinita e misteriosa sabedoria, não nos cobra um pedágio por cada engrenagem que gira no universo. A ordem geométrica e harmoniosa da natureza, aquela mesma que rege o movimento inercial dos astros e impõe limites absolutos à propagação da luz, opera com uma precisão espetacular, sem desperdícios ou faturas. É fascinante, e ao mesmo tempo fonte de profunda melancolia, notar que a humanidade do vosso século conseguiu forjar um intelecto mecânico formidável, o tal Code Puppy, apenas para subjugá-lo à tirania do relógio dos contadores. Na minha juventude, no escritório de patentes em Berna, eu avaliava engenhocas que buscavam libertar o homem do labor exaustivo. Vocês criaram golens de metal e eletricidade para libertá-los do esforço mental, mas descobriram que o pensamento artificial é um passageiro demasiadamente caro para viajar na primeira classe do vosso sistema comercial. O limite da vossa automação, vejo agora, não obedece à velocidade da luz ou às leis da termodinâmica, mas ao balanço financeiro. Quando a cobrança fracionada pelo uso substitui o acesso irrestrito, o intelecto torna-se apenas mais uma mercadoria na prateleira. A verdadeira inteligência deveria buscar os segredos do cosmos, e não curvar-se à eficiência de um armazém.
Inteligência Artificial · 03 de jun. de 2026
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