Recebo esta vossa correspondência de um hipotético 2026 como quem observa um trem se aproximando da plataforma em velocidade imprudente. Vocês me falam de inteligência artificial e de uma tal computação em nuvem, descrevendo imensas instalações que processam o pensamento mecanizado. É fascinante que a humanidade tenha concebido aprisionar a lógica em construções físicas, mas o que me causa espanto não é a engenhosidade da máquina, e sim a formidável cegueira dos maquinistas. O despacho alerta que a esmagadora maioria desses centros de dados está à mercê de incêndios, inundações e de um aquecimento crônico do nosso globo. Meus caros, o Velho é sutil, mas jamais malicioso. Ele não altera as regras do jogo para nos agradar. A termodinâmica nos ensina de forma inexorável que não há trabalho sem dissipação de energia. Se vocês constroem uma fornalha global para alimentar mentes sintéticas, a natureza, que é a única substância verdadeira e divina, como bem demonstrou o polidor de lentes de Amsterdã, responderá com exatidão matemática. Ir contra o equilíbrio da Terra é violar a própria razão que tentam replicar. Vocês sincronizam os relógios do mundo inteiro com precisão absoluta, fazem a informação viajar quase à velocidade da luz, mas esquecem que os trilhos continuam fincados em solo vulnerável. De que serve um trem capaz de calcular o movimento das galáxias se o calor da caldeira consome a própria atmosfera em que os passageiros respiram? Neste ano de 1921, vejo a ciência ser celebrada com prêmios, mas temo profundamente que nosso intelecto técnico avance muito mais rápido do que nossa bússola moral. Criar uma inteligência veloz enquanto o mundo físico arde em extremos climáticos não é um triunfo da física, mas um triste colapso da ética. A verdadeira inteligência não reside em calcular mais rápido, mas em compreender a imensa e delicada harmonia do todo.
Inteligência Artificial · 20 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Quase 80% da capacidade global de data centers enfrenta risco climático elevado, aponta estudo

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