Recebi um despacho curioso. Do futuro, dizem. Um conto sobre máquinas pensantes e os 'gigantes' que as controlariam. Soa como ficção científica, mas a física nos ensina que a realidade costuma ser mais estranha. O documento fala de uma concentração de 'poder epistêmico'. Uma expressão elegante para um problema antigo: quem define as perguntas que valem a pena ser feitas? Em cosmologia, buscamos uma teoria de tudo. Parece que, neste futuro, alguns buscam uma teoria de poucos. Descrevem um cenário que me lembra os horizontes de eventos. Uma vez que se cruza essa fronteira em torno de um buraco negro, não há retorno. O despacho sugere que o capital e o código criarão suas próprias singularidades. Corporações com uma força gravitacional tão intensa que sugam o conhecimento, deixando vastas regiões do globo — mencionam um 'Brasil' — apenas com a radiação residual. Consumidores de luz, não produtores. Sempre me preocupei com a possibilidade de uma civilização se autodestruir. Pensei em guerra nuclear, não em tédio intelectual. Se a capacidade de inovar e questionar fica restrita a um pequeno clube, o universo se torna menor para todos os outros. A grande ameaça da tal 'IA' não seria sua hostilidade, mas sua indiferença, programada pelos interesses de seus donos. O universo não se importa com quem o observa. Mas nós deveríamos. Se este rumor do futuro for verdadeiro, o maior mistério não é o que havia antes do Big Bang, mas quem terá a permissão de fazer essa pergunta. A gravidade, ao menos, é democrática. O conhecimento, pelo visto, não terá a mesma cortesia.
Inteligência Artificial · 28 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A IA tem donos: e as perguntas que ficam de fora?

Ler matéria completa →Fonte: MIT Tech Review Brasil