Chegou às minhas mãos em Menlo Park um relato absurdo sobre o ano de 2026. Fala-se de uma epidemia chamada AIDS e de uma geração inteira desperdiçando horas produtivas com ficção especulativa e literatura para curar memórias. Literatura! Como se palavras impressas pudessem iluminar uma rua em Nova York ou girar os motores de uma fábrica. Quando a cólera ou a febre amarela ameaçam nossas cidades, a resposta não está na poesia, mas no saneamento, na química, no laboratório. Se há um problema biológico, ele é mecânico em sua essência. Exige o rigor de dez mil testes, a catalogação exaustiva de materiais, a mesma transpiração brutal que dediquei ao filamento de bambu carbonizado para a lâmpada incandescente. Os homens desse futuro parecem valorizar a dor teórica mais do que a solução prática. Um inventor não chora sobre o vazio deixado por uma tragédia; ele isola o elemento defeituoso, constrói um novo circuito e patenteia a cura. Se essa tal doença moldou uma identidade, como diz o texto, ela o fez por ineficiência daqueles que deveriam resolvê-la, não por desígnio literário. Desprezo a teoria que não termina em um produto escalável. O que esses escritores vendem? Nostalgia? Fantasia? Isso não gera dividendos consistentes, não constrói redes elétricas, não derrota a corrente alternada perigosa de Westinghouse. Na minha fábrica, a única ficção permitida é a hipótese antes do experimento. Assim que ela falha no primeiro teste prático, vai imediatamente para o lixo. Se eu estivesse nesse século futuro, compraria as prensas desses romancistas, demitiria os sonhadores e usaria o maquinário para imprimir manuais técnicos de manutenção de dínamos e sistemas de distribuição. O mundo não precisa de novas formas de literatura ou de explorações de identidades abstratas. A humanidade precisa de luz contínua, força motriz confiável e patentes sólidas que rendam dólares reais no final do trimestre. Enquanto eles perdem tempo escrevendo, eu instalo cabos de cobre.
Cultura · 29 de mai. de 2026
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