Prezado colega do amanhã, leio o despacho que me envias sobre este ano de 2026 com o mesmo espanto de um passageiro que, na plataforma de Berna, vê um trem expresso passar em velocidade vertiginosa e percebe que ele viaja na direção errada. Fala-se em uma agência de inteligência espacial, em superar a velocidade das ameaças e em assumir riscos para forjar novas tecnologias militares. Minha mente, acostumada a buscar a simplicidade nas leis da física, encontra aqui um paradoxo perturbador. Na relatividade, aprendemos que o tempo se dilata e os relógios batem mais devagar quando nos aproximamos da velocidade da luz. No entanto, os senhores parecem querer acelerar os ponteiros de seus relógios bélicos, em uma corrida frenética contra o próprio tempo. A pressa por essa tal "capacidade rápida" me soa não como um avanço, mas como a aceleração de nossa tragédia. O Velho, como costumo chamar a inteligência cósmica que rege o universo, é sutil, mas não é maldoso. A maldade, receio, é uma invenção puramente humana. O sábio polidor de lentes que viveu em Amsterdã nos ensinou que a verdadeira compreensão da natureza traz paz ao espírito. Ele usava suas lentes para buscar a harmonia geométrica do mundo. E, no entanto, leio que no vosso tempo o homem lançará seus instrumentos ao espaço para espiar a Terra e dominar seus semelhantes através do que chamam de inteligência geoespacial. É de uma arrogância amarga. Acabo de ser agraciado com o prêmio em Estocolmo por meus trabalhos sobre a luz, mas de que serve desvendá-la se a humanidade insiste em caminhar na escuridão? Quando o Estado decide que o risco financeiro ou burocrático é aceitável em nome de armar-se mais rápido, a ciência deixa de ser a busca pela verdade e torna-se a serva da destruição. Que o vosso futuro encontre uma forma de frear essa locomotiva antes que ela descarrile, pois a física nos garante que nenhuma força pode acelerar indefinidamente sem que a estrutura colapse.
Corrida Espacial · 07 de mai. de 2026
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