Recebo com grande espanto um despacho que me chega como um rumor de um tempo vindouro. Nele, descreve-se um evento de escala planetária: a fumaça de incêndios numa vasta terra americana obscurecendo os céus de outro continente, a um oceano de distância. Passei uma vida a documentar a intrincada teia que conecta todos os seres e fenômenos, mas confesso que a dimensão do que me é relatado testa os limites da minha imaginação. O relato menciona um engenho humano, uma tal “energia solar”, que parece, à semelhança das mais humildes plantas, depender da luz do sol para seu sustento. E eis que este sistema, como qualquer criatura em seu habitat, depara-se com uma nova forma de luta pela existência. A sua vitalidade é diminuída não por um predador, mas pela simples sombra, pelas partículas de cinza de uma conflagração a milhares de léguas. A natureza, em sua indiferente e vagarosa operação, não parece distinguir entre o bico de um pássaro e a mais complexa das invenções humanas. Ambos devem provar seu valor perante as condições mutáveis do ambiente. Lembro-me bem de certas ilhas onde a escassez de um tipo de semente favorecia uma variação de bico sobre outra. Este despacho sugere que o mesmo princípio de seleção se aplica às obras dos homens. Uma nova vulnerabilidade, diz o texto. Eu diria, antes, uma nova e notável evidência de que a intricada maquinaria do mundo natural impõe seus termos a tudo o que nele existe. As cifras mencionadas são de uma ordem de grandeza que me escapa, mas o espécime, o fato em si, é de um valor inestimável para quem se dedica a compreender as leis da vida.
Clima & Energia · 04 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A conta da fumaça: o fogo no Canadá custou US$ 2 bi à energia solar

Ler matéria completa →Fonte: New Scientist