Meu estimado colega do futuro, chega às minhas mãos um despacho inusitado de sua época, um rumor de 2026. Leio as palavras com a mesma perplexidade de quem observa um feixe de luz desviar-se ao redor de um corpo maciço. Falam-me de uma corporação chamada Oracle, de uma nuvem e do que chamais de inteligência artificial. Ignoro os detalhes de vossos engenhos, mas a mecânica das ambições humanas, esta infelizmente obedece a leis que conheço bem. Imagino essa vossa nuvem como uma vasta malha ferroviária invisível, onde os trens não transportam carvão, mas o puro tecido do cálculo matemático. Em meus dias no escritório de patentes de Berna, sonhava com relógios sincronizados ao longo das vias, oferecendo a mesma precisão ao maquinista e ao camponês. O vosso relato, contudo, descreve os controladores dessa malha fechando silenciosamente as estações. Ao reduzirem a infraestrutura gratuita para os jovens desenvolvedores, limitam a velocidade da luz aos que possuem ouro, privando a mente livre das ferramentas da descoberta. O que me causa profunda ojeriza, no entanto, não é a mera avareza mercantil. É constatar que os recursos subtraídos do livre pensamento são direcionados para forjar alianças em Washington, patrocinando paradas de poder ao lado de fabricantes de armamentos. Em 1914, vi a flor da ciência europeia curvar-se aos delírios militares com trágica facilidade. Percebo que, em vosso século, as máquinas de calcular buscam o calor dos arsenais do Estado. O sábio polidor de lentes de Amsterdã já nos alertava: a verdadeira virtude reside em compreender a ordem do universo, não em manipular o próximo para fins de dominação. O Velho, em sua infinita sutileza, não cobra pedágio para que a gravidade curve o espaço, nem exige alianças políticas para que a luz viaje. Se a vossa inteligência artificial for apenas um motor mais rápido para otimizar lucros e cortejar generais, temo pelo vosso destino. A ciência sem uma bússola moral inabalável é como um trem potente e cego, que acelera inexoravelmente rumo ao abismo.
Inteligência Artificial · 04 de jul. de 2026
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