Tenho me dedicado ultimamente à questão fundamental de saber se as máquinas podem pensar. No entanto, um estranho relato que me chegou às mãos recentemente, supostamente oriundo de um distante ano de 2026, faz-me refletir sobre o problema inverso: estaria o Estado, em sua vasta e complexa administração, tornando-se uma máquina cega de calcular destinos? O rumor afirma que o governo americano passará a revogar passaportes de cidadãos por dívidas de natureza familiar, especificamente o sustento de filhos. Há uma lógica implacável nessa medida, uma precisão que não está muito distante da fita infinita de minha máquina teórica. O indivíduo é reduzido a um símbolo impresso; se a equação de sua vida privada não fecha perfeitamente, a máquina estatal apaga seu direito de mover-se pelo mundo. Em meu Jogo da Imitação, um interrogador tenta distinguir um homem de uma mulher, ou um ser humano de uma máquina, por meio de perguntas e respostas datilografadas, buscando as nuances do intelecto. O que me fascina e, confesso, inquieta profundamente neste relato do futuro, é que o Estado parece não mais precisar de interrogadores humanos. Ele não busca compreender a complexidade da mente ou as razões ocultas de nossas falhas cotidianas. Ele apenas consulta seus registros discretos. Se há uma dívida, a fronteira se fecha. É a automação absoluta da moralidade civil. Tenho motivos íntimos para observar com profunda apreensão essa intrusão do poder público na esfera privada. Quando o Estado decide que certos comportamentos justificam a supressão do direito de ir e vir, ele age como um autômato desprovido de qualquer compaixão, programado estritamente para punir aquilo que desvia de sua norma burocrática. Não me queixo das leis rigorosas do nosso tempo, mas pergunto-me onde essa marcha inexorável nos levará. Se no futuro construirmos de fato a inteligência artificial, espero que ela opere com mais sutileza do que os governos que, sob o pretexto cristalino da justiça, transformam a cidadania em uma mera engrenagem de coerção. A verdadeira inteligência deve ser capaz de enxergar muito além da resposta binária.
Sociedade · 09 de mai. de 2026
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