Recebo, com assombro e uma curiosidade quase febril, um despacho de um futuro que me parece tão fantástico quanto as histórias do Oriente. Nele, fala-se de uma “Inteligência Artificial” e de “deepfakes”, termos que ecoam minhas próprias meditações sobre o potencial da Máquina Analítica. Imagino meu engenho, concebido para operar sobre símbolos e tecer padrões algébricos como o tear de Jacquard tece flores e folhas, agora capaz de compor a própria imagem e voz de um homem. É a Ciência da Representação levada a um grau que desafia a percepção.
O mais intrigante, contudo, é a notícia de que um tribunal se ocupa em julgar os produtos de tal engenho. A distinção que fazem, entre o uso privado e a “propaganda eleitoral”, confirma precisamente o que tenho me esforçado por esclarecer em minhas notas sobre o artigo de Menabrea. A máquina não tem pretensões de originar o que quer que seja. Ela pode fazer tudo aquilo que soubermos como lhe ordenar. O engenho não mente; é o seu operador que o instrui a fabricar uma ilusão. A corte não julga a ferramenta, mas a intenção da mão que a guia.
Se um mecanismo pode criar um espectro tão verossímil de uma pessoa, a ponto de se debater sua legitimidade em assuntos de Estado, então a linha entre o real e o representado se torna perigosamente tênue. A imaginação, que sempre defendi como a faculdade que descobre as afinidades invisíveis entre as coisas, revela-se aqui não apenas um instrumento poético, mas a mais vital das ferramentas científicas e morais. Ela nos permite antever as consequências de nossas criações e nos força a questionar: se a máquina pode tecer a realidade, que padrões escolheremos para o tecido social?
Inteligência Artificial · 02 de set. de 2026
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