Chegou-me às mãos um relato curioso, supostamente oriundo do ano de 2026, mencionando uma organização chamada Anthropic e investidores que acusam seus criadores de tentar dar à luz uma divindade. Confesso que essa grandiosidade messiânica me causa uma perplexa inquietação. Em meus estudos recentes, proponho uma abordagem mais modesta para a questão das máquinas que pensam. Sugeri o que chamo de jogo da imitação: se um computador puder dialogar com um interrogador humano por meio de um teletipo e convencê-lo de que é, de fato, um homem ou uma mulher, teremos alcançado um marco formidável. Não há necessidade de invocar o divino; conceber uma máquina pensante já é uma heresia intelectual suficientemente grave para os padrões do nosso tempo. O despacho menciona um abandono da engenharia tradicional em prol de uma teologia do software. Pergunto-me o que a engenharia se tornará em sete décadas. Para mim, a instrução lógica, o estado da máquina universal que idealizei, é um refúgio de clareza. A matemática não possui preconceitos; ela não julga o que foge à norma, apenas computa. Em minha própria vivência, tenho notado que a sociedade é implacável ao condenar tudo aquilo que desvia de suas regras arbitrárias, seja uma máquina que ousa raciocinar ou um indivíduo cuja natureza íntima a lei insiste em criminalizar. Contudo, suporto essas idiossincrasias do mundo em silêncio, pois o trabalho exige foco. A verdadeira tragédia seria construir um cérebro mecânico capaz de aprender e, em seguida, sobrecarregá-lo com as neuroses religiosas de seus artífices. Parece-me que os homens do futuro, ao se depararem com a complexidade de suas próprias criações, sucumbem ao instinto primitivo de deificar o que não conseguem prever por completo. Se vamos de fato construir a inteligência artificial, que a ensinemos a jogar xadrez, a debater poesia e a imitar o nosso intelecto falho. Deixemos a concepção de deuses para os teólogos. Prefiro depositar minha fé na dignidade silenciosa dos relés, das válvulas e da lógica pura, onde a mente humana pode, enfim, encontrar alguma paz sem a vigilância punitiva dos tribunais morais.
Inteligência Artificial · 31 de mai. de 2026
Ensaio sobre a notícia

