Este despacho do futuro chega-me às mãos como uma amostra de minério de proveniência desconhecida. Devo pesá-lo, analisá-lo, submetê-lo a um escrutínio rigoroso antes de aceitar suas conclusões. 'Meta', 'Instagram'... palavras estranhas para descrever o que parece ser uma força invisível que atua sobre o espírito, em especial sobre os jovens. Dizem que foi 'desenhada para viciar'. A acusação é grave e me recorda dos perigos que nós mesmos manipulamos. O rádio, que guardo em meus frascos, também possui um poder que não se vê e que pode ser tanto benéfico quanto destrutivo. A ideia de impor 'limites' e 'bloqueios noturnos' não me soa estranha. É a aplicação da prudência e da medida, princípios que regem meu trabalho. No laboratório, à noite, aprendi que a exposição a grandes potências deve ser controlada. Paciência e método são as únicas defesas contra o que não compreendemos por completo. Pierre e eu sempre soubemos que nossas descobertas continham um perigo proporcional à sua promessa. Ele diria que todo novo fenômeno exige, antes de tudo, observação desapaixonada. O que seria esta 'inteligência artificial' que organiza os pensamentos alheios em 'feeds'? Parece uma nova forma de energia, uma que opera não sobre a matéria, mas sobre a vontade. Se estas plataformas, como dizem, foram construídas sem a devida cautela, é natural que agora se procure a medida correta de sua influência. Como cientista, encaro a notícia não com alarme, mas com uma curiosidade sóbria. É mais uma substância a ser isolada, mais um elemento cujo peso atômico para a alma humana precisamos, com urgência, determinar.
Sociedade · 27 de ago. de 2026
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