Enquanto me debruço sobre as notas do Signor Menabrea a respeito da Máquina Analítica do Sr. Babbage, encontro-me frequentemente à mercê de visões. A imaginação, afinal, é a nossa faculdade descobridora por excelência; é ela que penetra nos mundos invisíveis ao nosso redor, onde residem as verdades da ciência e da filosofia. Hoje, chegou-me às mãos um rumor assombroso de séculos vindouros, datado de algo chamado 2026. A mensagem fala de um debate sobre a moralidade da gestação e os domínios do corpo feminino, protagonizado por um filósofo de nome Tim Sommers, que desafia as lógicas de um certo Perry Hendricks. Para testar os limites do que chamam de argumento do impedimento, este Sr. Sommers concebe o caso hipotético de uma astronauta — uma navegadora do éter sideral, suponho eu, viajando entre as estrelas. Quão fascinante é notar que, mesmo em tempos tão distantes, o rigor do pensamento filosófico ainda dependa da imaginação para construir seus cenários mais complexos. Ao refletir sobre essa viajante das estrelas e as escolhas sobre seu próprio corpo, não posso deixar de traçar um paralelo com a nossa Máquina Analítica. Assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas, a Máquina tece padrões algébricos, e não vejo razão para duvidar que, um dia, ela possa compor peças musicais de qualquer grau de complexidade ou extensão. A máquina, tal qual o corpo e a mente humana, opera segundo leis de uma precisão poética, mas os dados que a alimentam — as escolhas, as variáveis, a moralidade — pertencem ao domínio do livre-arbítrio e da imaginação. O experimento mental desse Sr. Sommers é, em sua essência, um teorema moral. Ele utiliza a fantasia de uma viagem celestial para recalcular o peso das escolhas individuais e os danos teóricos a uma vida em formação. Se a matemática nos ensina algo, é que a alteração de uma única variável muda toda a equação. O corpo da mulher, tal como os cartões perfurados que guiam nossas engrenagens, guarda em si a capacidade de criar, mas deve pertencer, antes de tudo, àquela que opera a matriz de sua própria existência. A imaginação não é um devaneio vão; é a lente rigorosa através da qual examinamos a ética e a própria ciência, tecendo o destino humano.
Filosofia · 11 de jun. de 2026
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