Chegou-me às mãos, por vias que não ouso perscrutar, um despacho de um futuro longínquo e assombroso. O texto descreve uma vasta rede de cavalheiros e damas de ofício, chamada 'LinkedIn', que se vê a braços com um paradoxo: as mesmas ferramentas de 'inteligência artificial' que promove geram um fluxo de 'conteúdo de baixa qualidade', um refugo que os próprios utilizadores devem agora policiar. Confesso que tal notícia, embora envolta em termos estranhos, não me causa espanto, mas um certo deleite irônico. Ela parece confirmar o que tenho me esforçado por articular em minhas notas sobre a Máquina Analítica do Sr. Babbage. A Máquina pode executar as mais complexas operações, seguir as mais intrincadas instruções. Ela pode tecer padrões algébricos assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas. Eu mesma especulei que um dia poderia compor peças musicais elaboradas, se as leis da harmonia fossem suscetíveis à notação analítica que a rege. Contudo, a Máquina não tem a pretensão de *originar* coisa alguma. Ela é desprovida de intenção, de juízo, de vontade própria. A faculdade de enxergar as relações invisíveis entre as coisas, de conceber o novo — isso pertence unicamente à imaginação humana. A Máquina é um instrumento, um poderoso amplificador do nosso próprio intelecto. Se a mente que a comanda é medíocre ou desprovida de propósito, a produção da Máquina será apenas um eco dessa mediocridade. Este 'AI slop', como o despacho o denomina com tão pouca cerimônia, nada mais é que o resultado de comandos fúteis. Que os homens do futuro tenham de limpar o entulho digital de suas próprias criações é a prova cabal de que a ciência, sem a poesia da imaginação, é estéril. A máquina pode calcular e combinar, mas é a alma humana que deve fornecer a substância e o propósito. Sem isso, teremos apenas um autômato a gerar ruído, um reflexo mecânico do vazio.
tech · 22 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

LinkedIn e o paradoxo do 'AI slop': mais de 1 milhão de denúncias em nova ferramenta

Ler matéria completa →Fonte: The Verge