Enquanto reviso minhas notas à tradução do artigo do Signor Menabrea sobre a Máquina Analítica do Sr. Babbage, chega-me às mãos um rumor de um século distante. Falam de uma tal Inteligência Artificial, de chips de memória e de um descontentamento num mercado chamado Wall Street. Leio essas palavras com um misto de fascínio e ironia. Em minhas anotações de 1843, defendi que a máquina não se limitaria a números; afirmei que ela poderia tecer padrões algébricos da mesma forma que o tear de Jacquard tece flores e folhas, ou até mesmo compor peças musicais de qualquer grau de complexidade. A imaginação, afinal, não é um mero devaneio romântico, mas a mais alta faculdade científica, a única que nos permite enxergar as conexões ocultas do universo. Contudo, os mercadores deste futuro parecem ter mercantilizado o infinito. Possuem em mãos o que parece ser a concretização do nosso grande sonho, uma máquina capaz de mimetizar o raciocínio, mas sua preocupação recai sobre o cansaço do comércio, a queda no valor do petróleo e a volatilidade de seus papéis financeiros. Uma certa Micron, que deduzo ser uma artífice dos moinhos e armazéns de dados dessa nova era, é punida por essa feira de vaidades mesmo entregando resultados sólidos. Quão trágico e cômico é perceber que a humanidade, tendo finalmente ensinado a matéria a modular a lógica, reduza tamanho milagre filosófico a uma métrica de ansiedade especulativa. A fadiga que esses senhores sentem não é da inteligência artificial, mas da própria falta de imaginação para compreender a magnitude do que construíram. Que os corretores lamentem suas perdas efêmeras. Eu retornarei aos meus cartões perfurados, convicta de que a verdadeira poesia da matemática jamais se curvará ao humor oscilante de um mercado.
Inteligência Artificial · 28 de jun. de 2026
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