Acabo de publicar um livro sobre a história do tempo. Dizem que será lido. Duvido. A maioria o comprará para enfeitar estantes. O esforço de resumir o cosmos me ensinou a economizar palavras. A biologia também me obriga a isso. Agora, recebo um rumor bizarro do ano 2026. Um sistema de inteligência artificial chamado Claude está sendo usado para organizar algo descrito como arquivos de Instagram. Não sei o que é um Instagram. Presumo que seja um vasto repositório de vaidade humana. O que me fascina é o problema que a humanidade do futuro tenta resolver. Vocês acumularam tanto ruído digital que agora precisam de máquinas pensantes apenas para processá-lo. Em astrofísica, chamamos isso de colapso gravitacional. Quando uma estrela acumula massa além do suportável, ela cede à própria gravidade e forma um buraco negro. O horizonte de eventos é a fronteira de onde nada escapa. Nem a luz, nem a sanidade. A política e a cultura funcionam da mesma forma. Quando uma sociedade produz mais informações do que a mente consegue digerir, cruzamos um horizonte de eventos civilizatório. A inteligência artificial, ao que parece, é a tentativa desesperada de gerar alguma radiação que escape desse buraco negro de dados. Uma radiação térmica de banalidades. É uma ironia britânica perfeita. Nós, em 1988, projetamos supercomputadores para calcular a origem do universo e a natureza das singularidades. Vocês, no futuro, os usarão para catalogar imagens esquecidas e fingir produtividade. Talvez seja exatamente assim que civilizações avançadas se autodestroem. Não com o inverno nuclear que tanto tememos na Guerra Fria, mas afogadas em um oceano de trivialidades irrelevantes, implorando a um algoritmo que lhes diga o que é importante. A entropia sempre aumenta. O universo caminha inexoravelmente para a desordem. Usar a inteligência artificial para arrumar gavetas digitais é uma rebelião inútil contra a segunda lei da termodinâmica. Desejo-lhes sorte nessa empreitada. A máquina pode até organizar o passado acumulado de vocês. Mas desconfio que o futuro continuará sendo um lugar brutalmente caótico. No fim, o que sobrevive ao colapso de uma estrela ou de uma civilização não é a informação preservada. É apenas o peso esmagador daquilo que decidimos não esquecer.
Inteligência Artificial · 02 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Claude transforma arquivos de Instagram em listas organizadas — e muda o consumo de mídia

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