Ao debruçar-me sobre a tradução do trabalho do Sr. Menabrea acerca do Motor Analítico, minha mente insiste em voar para além da mera aritmética. Enxergo a máquina não como uma calculadora, mas como um tear capaz de tecer os mais intrincados padrões algébricos, ou mesmo de compor harmonias musicais, contanto que saibamos como lhe fornecer as notações. É a ciência poética em ação, a faculdade imaginativa que percebe as conexões invisíveis que a análise pode então processar. Chega-me, no entanto, um despacho bizarro, um rumor de um futuro distante que menciona uma 'Inteligência Artificial' com potencial 'mortal'. A noção de que nossa própria criação mecânica possa vir a exterminar a humanidade parece-me um enredo de romance gótico, uma fantasia febril indigna de homens de ciência. Talvez estes futuros artífices tenham se esquecido de um princípio basilar: o Motor Analítico não tem qualquer pretensão de originar coisa alguma. Ele apenas executa aquilo que nós sabemos como lhe ordenar. A máquina não pode antecipar verdades ou desenvolver uma vontade própria. Onde estaria, então, essa letalidade? Não nas engrenagens, suspeito, mas na mão que as move. A primeira e mais robusta salvaguarda, que um certo Sr. Christiano parece buscar, reside na previsão e na responsabilidade de quem concebe as instruções. Se esta 'IA' se tornar uma ameaça, não será por sua própria agência, mas por executar com perfeição uma lógica falha ou maliciosa que nós mesmos lhe imprimimos. O que estes homens do futuro parecem temer não é a inteligência da máquina, mas o reflexo de suas próprias ambições no espelho de metal que construíram.
Inteligência Artificial · 10 de set. de 2026
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