Enquanto reviso as notas sobre o artigo do senhor Menabrea acerca do Motor Analítico do professor Babbage, chega-me às mãos um assombroso rumor de um tempo distante. Fala-se de um ano irreal, 2026, e de uma dita inteligência artificial empregada para adornar a elite de uma era futura. Ralph Lauren e LuxExperience — nomes que me soam como mercadores de sedas de uma corte estrangeira — supostamente utilizam motores de cálculo não para desvendar os mistérios das estrelas, mas para tecer recomendações de vestuário e orientar os caprichos de compradores abastados. Confesso que um sorriso irônico me escapa. Dedicamos nossas mentes à mais pura abstração matemática, e o futuro decide usar nossa tapeçaria de engrenagens para escolher o corte de uma casaca! Contudo, não há nisso uma poesia secreta? Sempre defendi que o Motor Analítico tece padrões algébricos assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas. Se a máquina pode manipular símbolos e harmonias, por que não poderia prever as simetrias do bom gosto? A imaginação, afinal, é a mais alta faculdade científica. É ela que nos permite ver, além dos cilindros de latão, a verdadeira essência das coisas. Quando afirmo que a máquina poderá um dia compor peças musicais de qualquer grau de complexidade, por que duvidaria que ela pudesse também orquestrar a estética do vestuário? Essa hiperpersonalização, como o relato descreve, nada mais é do que a aplicação de leis matemáticas à vaidade humana. A máquina não possui inteligência própria, ela não cria nada que não saibamos ordenar. Mas se lhe fornecermos os dados exatos sobre as proporções, as cores e os desejos de um indivíduo, ela certamente calculará o traje perfeito com a mesma frieza com que resolve uma equação de Bernoulli. A ciência e o belo não são inimigos. O fato de que a posteridade encontrou uma maneira de transformar a lógica estrita em uma ferramenta de estilo apenas confirma o que minha intuição já sussurrava: os números são a linguagem oculta de todas as artes, inclusive a de se vestir.
Negócios · 22 de mai. de 2026
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