Recebi um despacho curioso, supostamente do futuro. Descreve um satélite, Landsat 9, e uma cratera na Austrália. Em forma de aranha. A natureza tem seu senso de ironia. A Terra coleciona cicatrizes. Lembretes de que o universo é um lugar violento. Nós, por outro lado, parecemos determinados a criar nossas próprias feridas, sem ajuda externa. Esta 'Aranha' geológica me faz pensar nos horizontes de eventos. Não os cosmológicos, mas os políticos. Pontos de não retorno que nações e ideologias desenham para si mesmas. Uma vez cruzada a fronteira, o debate cessa, a luz da razão se apaga. E todos se espantam com o colapso. Falam-me de rumores sobre inteligência artificial. Uma mente de silício para resolver nossos problemas. Pergunto-me se ela seria inteligente o suficiente para não construir suas próprias teias. Ou se apenas nos ajudaria a tecer as nossas com mais eficiência. Uma civilização avançada inevitavelmente se autodestrói? Talvez o Grande Filtro não esteja no espaço, mas dentro de nós. O universo nos deu a capacidade de compreendê-lo. Uma dádiva rara. Usá-la para nos aniquilarmos seria o cúmulo da má gestão cósmica. No fim, o que sobrevive ao colapso? Zircão deformado. Uma estrutura curiosa na paisagem. A poeira e a estupidez humana parecem ter uma longevidade notável. Espero que a curiosidade, que nos levou a encontrar esta aranha de pedra, também tenha. É nossa única chance de não ficarmos presos na teia.
← Stephen Hawking · 1988
A Teia e a Cicatriz
Físico teórico, autor de Uma Breve História do Tempo. Trabalhou em buracos negros, singularidades e o destino do universo.

