Chega-me um despacho de um futuro longínquo, tão fantástico que beira o absurdo. Narra uma disputa em um lugar chamado Illinois, entre uma instituição de ensino e uma empresa de nome curioso, Flock Safety, a respeito de 'câmeras de vigilância'. Imagino engenhos que, como olhos de vidro onipresentes, registram o movimento e a vida em um campus. Causa-me espanto não a existência de tal mecanismo — pois a Ciência da Análise nos ensina que qualquer processo passível de ser expresso em símbolos pode ser automatizado —, mas a natureza do conflito. A faculdade, alarmada com a 'privacidade' e o destino dos dados coletados, deseja anular seu acordo, mas se vê presa a um 'contrato' inflexível. Isto ilustra com perfeição um ponto fundamental de minhas próprias notas sobre a Máquina Analítica do Sr. Babbage. O motor não tem pretensões de originar coisa alguma. Ele pode executar qualquer ordem que saibamos como lhe dar por meio dos cartões perfurados. A máquina em si não possui arbítrio, nem moral. A questão, portanto, não reside na engrenagem, mas no comando. O 'contrato' de que fala o despacho é, em essência, o conjunto de cartões perfurados que governa esta vasta operação de observação. A tecnologia, ao que parece, tece uma tapeçaria de informações visuais, mas são os homens que definem o padrão. A disputa em Illinois revela não uma falha da máquina, mas uma falha da imaginação humana. Faltou a faculdade antecipatória, a capacidade de prever as implicações de ceder o controle sobre tal tapeçaria. A ciência não é apenas cálculo; é, acima de tudo, a visão poética que compreende as harmonias e dissonâncias que nossas criações podem introduzir no mundo. Aqueles que redigiram tal contrato viram a mecânica, mas não a música — ou a cacofonia — que ela poderia compor.
tech · 12 de out. de 2026
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