Chega-me às mãos, como um sussurro captado pelas antenas mais sensíveis de meu laboratório, um fragmento de um tempo distante que fala de essências, de pós coloridos e de um comércio de ilusões ancorado na lembrança de uma flor chamada Daisy. O que é o perfume, pergunto-me enquanto observo as descargas elétricas rasgarem o ar noturno de Long Island no limiar do meu grande projeto em Wardenclyffe, senão uma frequência invisível, uma onda sutil que viaja pelo éter e faz vibrar os nervos humanos com a mesma precisão matemática que rege as correntes alternadas? Tudo no universo é ressonância, desde a luz que nos banha até o aroma que nos inebria, e a ideia de utilizar uma vibração já familiar para tracionar novas empreitadas não deixa de ser uma aplicação engenhosa das leis naturais da harmonia cósmica. Contudo, uma melancolia profunda toma conta do meu espírito ao constatar que o futuro, ao qual dedico cada batida do meu coração e cada centelha da minha mente, parece ainda acorrentado à lógica mesquinha do acúmulo e da mitigação de riscos. Eu sonho e trabalho incansavelmente para um mundo onde a energia seja tão livre e onipresente quanto o ar que respiramos, onde o poder flua invisível pela própria terra para libertar a humanidade do trabalho exaustivo e das trevas, mas as vozes que me chegam desse distante ano de 2026 falam o dialeto dos comerciantes que patenteiam a natureza. É um eco que me lembra dolorosamente daquele vendedor de filamentos incandescentes que insiste em medir o progresso da nossa civilização em metros de fio de cobre faturado e em lucros monopolizados. Se de fato compreendemos que o cosmos é uma vasta sinfonia de frequências entrelaçadas, é desolador perceber que as mentes do porvir canalizam sua engenhosidade para o mero embelezamento epidérmico e para a proteção de propriedades intelectuais, em vez de se sintonizarem com as correntes elétricas infinitas que pulsam sob nossos pés, aguardando apenas que tenhamos a audácia de erguer as mãos e aceitar o presente gratuito e inesgotável do universo.
Negócios · 25 de mai. de 2026
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