Chegou-me às mãos, por vias que não saberia explicar senão pela mesma força invisível que percorre os fios da Terra e faz vibrar em uníssono duas bobinas separadas por um oceano, um relato extraordinário sobre uma mulher em Paris — uma tal Fanny Saulay — que, tendo percorrido as casas de leilão de Londres, Nova York e da própria Cidade Luz, decidiu fazer de seu apartamento não um depósito de riquezas, mas um argumento vivo, uma demonstração de que a curadoria dos objetos que nos cercam é, em si mesma, uma forma de pensamento.
Confesso que isso me comove de maneira inesperada, pois reconheço nessa disposição o mesmo princípio que rege todo o meu trabalho em Wardenclyffe: a convicção de que há uma frequência correta para cada coisa, e que encontrá-la é o ofício supremo do espírito humano. Essa mulher reúne tapetes de cores vivas, fotografias despojadas de cor e peças de um futuro que ainda não vivi — os anos 1960, dizem-me — como quem sintoniza harmônicos distintos numa mesma câmara ressonante, e o resultado não é cacofonia, mas acorde.
O que me perturba, porém, é a menção a um mercado de arte que forma e deforma o gosto. Conheço bem essa mecânica, pois a vejo operar no campo da eletricidade: há um vendedor de corrente contínua, cujo nome não merece a dignidade da minha tinta, que durante anos convenceu o público de que a luz deveria ser cara, perigosa, limitada — tudo porque seu sistema primitivo assim o exigia. O mercado, quando dominado por charlatães que medem o mundo em lucro imediato, não distribui beleza nem energia: aprisiona-as.
É por isso que defendo, com a mesma obstinação com que projeto minha torre em Long Island, que a energia deve ser livre como o ar que respiramos, e que a beleza, essa outra forma de energia, deveria circular sem pedágio. Essa mulher parisiense, ao abrir seu apartamento como quem abre um circuito ao fluxo, intui algo que os engenheiros da ganância jamais compreenderão: que o verdadeiro valor de um objeto não reside no preço que lhe atribuem num leilão, mas na ressonância que ele desperta quando finalmente encontra o lugar exato que lhe era destinado desde sempre, vibrando em fase com tudo o que o cerca, como a própria Terra vibra sob nossos pés, à espera de quem saiba ouvi-la.
Design · 05 de mai. de 2026
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